Broche de Plástico, Diamante de Vidro, Minhocas e Girinos

Quando eu tinha 6 anos, meus pais me colocaram em um outro colégio. Lembro que eu olhava as crianças brincando e não entendia muito o sentido daquilo. 

Não que eu não gostasse de brincar, não que eu não gostasse de criar, de imaginar, nada disso: para mim, era gostoso brincar, mas eu queria entender sobre o que era mesmo cada brincadeira.

Com minha irmã, brincava muito de Barbie. Tinha enredo, personagens, tudo bem certinho. Eu gostava mais da parte de arrumar a casa delas e de organizar sobre o que seria a história da qual as bonecas fariam parte, do que da brincadeira em si. Inclusive isso era motivo de chateação para a minha irmã, pois eu, espertinha, sempre dava um jeito de montar tudo no quarto dela. E aí, já viu: eu me cansava da brincadeira e deixava a bagunça. Ok, não me orgulho disso, mas ah… A beleza da infância.

Quando eu vi meu primo brincando de carrinho, não entendi porque algumas pessoas da família me disseram que era “brincadeira de menino”. Fiquei curiosa com o brinquedo que deslizava pelo assoalho encerado da casa da vó e fiquei feliz quando recebi um carrinho policial da minha avó, quando eu tinha uns 7 anos. Dona Nilda, muito à frente de seu tempo.

Eu sempre gostei de ler e carregava livros por onde eu ia. Tinha uma bolsa da Hello Kitty, laranja, onde eu enfiava tudo dentro.

Mas as brincadeiras das crianças do colégio novo… Estas eram estranhas para mim.

Um dia vi uma menina desenhando. Pedi a ela dois presentes: um desenho de monstro e um desenho fofo. Ela desenhava muito bem e eu adorei os desenhos que recebi. Ela ficou surpresa: “Desenho de monstro? Por quê?” O monstro parecia com os personagens malvados de Power Rangers. O fofo era um cachorrinho ou gatinho, agora sinceramente, eu não me lembro.

(Olha a Martina de 6-7 anos, querendo ver se a menina podia desenhar qualquer coisa que aparecesse. E eu na época não desenhava. Ou melhor, eu nunca tinha tentado desenhar. Olha o método, o processo aí. Já começando a nascer)

Um dia vi uma outra menina segurando um pote de vidro, cheio de pedacinhos brilhantes de pedrinhas cristalinas. Perguntei a ela o que era, já que ela sacudia ao sol e brilhava muito. “São diamantes”.

Pensei: “Impossível. Nenhum pai deixaria o filho sair por aí com diamantes”.

Perceba que eu fiquei mais absorta ao fato de que os pais deixaram a filha sair com as pedras preciosas, do que com o fato de ser ou não diamantes.

E por que isso? A rigidez da minha educação recebida sempre pensava pelo ângulo da obediência, do respeito aos pais. 

E certo dia, perguntei bem diretamente. “Como você conseguiu estas pedras?”

E ela, rindo, me contou: “quando eu arremessei o copo no chão, ele virou esse punhado de diamantes”.

Fui para casa, intrigada. “Mas como que vidro vira diamante?” “Será que o copo era de cristal?””E aí caiu e virou diamante?””Mas uma matéria não tem como virar outra, né?””Ou tem?”

Quebrei um copo, guardei os cacos de vidro no pote transparente, fui ao sol com eles, brilharam… Mas logo pus fora.
“Não tem graça fazer de conta quando sabemos que a história é impossível de ser realizada”.

A mesma menina veio com um pote cheio de trevos de quatro folhas, noutro dia. Achei incrível!  “Nossa, que sortuda! Eu a vida toda não achei um!”

Depois ela me contou que tinha um pé de trevos de 4 folhas na casa dela. E eu nem sabia que isso existisse.

Dentro de mim, eu só pensava:”Que graça tem, trapacear a sorte?”

Voltei para casa, caminhei por todo o jardim dos meus avós, nada de trevo de quatro folhas.

Deitei na grama, olhei pro céu, pensei:”Talvez os trevos reais só apareçam para quem não os esteja procurando”.

Logo o verão foi dando adeus e aos poucos os dias começaram a ficar mais frios. Veio o período das festas juninas. Ganhei um broche de girassol na brincadeira da pescaria. Feio, rústico, mal acabado. Mas mesmo assim, usava no blusão cor de creme que eu vestia para brincar. Lembro que eu sentei embaixo da nogueira e pensei “Não há como eu achar bonito algo que não tem qualidade”.

Tirei o broche, olhei bem. Ele era de duas cores. O girassol todo amarelo, o pin que prendia na roupa, engatado atrás, era preto.

Joguei o broche fora. 

Lembrei que estava na hora de examinar o crescimento dos girinos e de coletar novas minhocas para experimentos científicos.

Moral da história: Eu já era designer, mas ainda não sabia; já amava pensar sobre coisas que os demais esqueciam ou não se importavam e as melhores coisas da vida, nunca foram coisas.

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