Literatura com ativismo cultural e social marcam a trajetória do escritor Doralino Souza

Quem vê Doralino Souza, escritor de livros, dono de editora, idealizador de uma revista e finalista em importantes prêmios literários, talvez não imagine a lista gigante de profissões em que já atuou. Com origem em uma família humilde, aos 10 anos trabalhava em atelier no contraturno escolar e, no ano seguinte, deixou o colégio para trabalhar de modo integral. Nascido em 1969, considera-se do grupo dos últimos rebeldes dos anos 1960, tendo sido adolescente nos anos 1980, época de grande efervescência cultural, com reabertura política, reestruturação dos sindicatos e partidos, nova constituinte, rock nacional e um universo de sonhos e possibilidades. Aos 25 anos, fez supletivo para encerrar o ensino fundamental e depois cursou o médio no noturno.

Até tornar-se escritor, muitas experiências. “Fui sapateiro, garçom, vendedor, cobrador de ônibus, ajudante de caminhoneiro, redator de rádio, serigrafista,  gráfico, conselheiro tutelar, jornalista e dezenas de outras funções. Fiz várias disciplinas de letras, algumas de história, outras de jornalismo, acabava cancelando por falta de grana, de mudança ou questões de trabalho. No fim, me formei em publicidade, mais por necessidade de ter um diploma. Me considero jornalista, é onde atuo há mais de 20 anos”, relembra orgulhoso de sua trajetória, destacando que  carregava consigo uma vontade de se expressar e contar das angústias que sentia.

Doralino acredita que o fazer literário sempre esteve nele, embora ainda não soubesse. Ainda criança, aprendeu a ler o mundo e as pessoas, algo que considera fundamental para um escritor ficcionista. Como membro de movimento sindical e militância política, pode desenvolver ainda mais suas habilidades na área da comunicação e viu a importância das artes como instrumento de transformação. Foi nesta época que começou seus primeiros escritos literários, contos, crônicas e poesia, só que havia outras prioridades, outras necessidades e o sonho da escrita foi ficando para depois.

A carreira de escritor

De 2000 a 2006, Doralino foi conselheiro tutelar, mas foi em sua segunda passagem pelo cargo, em 2010, que se deparou com a mesma situação de negligencia e violência estrutural de anos antes, o que parecia um círculo vicioso, não apenas no local, mas nacionalmente. Foi então que decidiu escrever sobre as histórias que presenciava. Optou pelo estilo ficção a partir de fatos reais, onde as possibilidades de discussão e debate seriam ilimitadas. Em 2013, inscreveu dois contos desta coletânea em concursos de renome nacional, conquistando o primeiro lugar ante a centenas de autores. Então sentiu: Era o momento de dar vazão ao sonho de ser escritor.

No ano seguinte, abriu um selo editorial, pois havia trabalhado em editora gráfica, conhecia as técnicas de produção, desde a escolha de papel ao registro ISBN, e lançou seu primeiro livro, Anjos também usam boné, uma coletânea de contos baseados nas vivencias de conselheiro tutelar. “Para minha surpresa ele acabou finalista ao Prêmio Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores, ou seja, foi considerado um dos 03 melhores livros de contos lançado em 2014. Desde então não parei mais, continuo me aperfeiçoando, participando de oficinas literárias, cursos e seminários”.

Em 2016, lançou o livro juvenil “O cânion de dentro” e foi novamente finalista ao prêmio Livro do Ano, desta vez na categoria Juvenil. Em 2019, lançou Dentes no copo de uísque & outros contos de crime, agora destinado ao público adulto. No momento, está desenvolvendo três livros: uma coletânea de contos e dois romances. “Também estou envolvido, através da minha editora, com a edição e produção de vários projetos literários que foram contemplados pela Lei Aldir Blanc, além da Revista Paranhana Literário, um projeto que gosto muito”, conta. 

Levar a arte e mostrar sua importância

Doralino considera que a existência de feiras do livro em cidades pequenas é importante para a formação de novos e assíduos leitores. Além disso, o incentivo ao estudo, que hoje é mais frequente, e as novas tecnologias contribuem para o hábito da leitura, algo que, em seu tempo, não havia. Seu gosto começou nos quadrinhos, depois com as indicações de livros pelas bandas e cantores, até que começou a formar sua própria biblioteca particular.

Para ajudar a estimular os fazedores da arte, criou a revista digital Paranhana Literário. Em meio a pandemia ele tirou o sonho do papel, foi lá e fez o que chama de ‘não culpar o cenário desfavorável, mas tirar a bunda da cadeira e fazer você mesmo’. O objetivo é fomentar a arte, levando-a para além das fronteiras já que é em formato virtual e com download gratuito. “Todas as matérias são, de alguma forma, interessantes para quem está começando, seja entrevista com quem já deu certo, seja projetos em andamento ou dicas de escrita e mercado editorial. Também busco dar espaço para literatura e culturas periféricas ou alternativas, não apenas da nossa região, mas de todo o Brasil, pois hoje em dia, não existem mais fronteiras, principalmente em se tratando de manifestações culturais. O espaço está aberto para quem quiser se arriscar, basta, em primeiro lugar, conhecer a revista, ler, pra saber do que se trata, e seguir os passos indicados nela”.

Esta reportagem integra a série “Arte Igrejinhense na Vitrine”, que tem como objetivo final a produção de um e-book. A produção cultural foi contemplada pela Lei Aldir Blanc em Igrejinha.

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