Mensageiros

Os carteiros não entregam mais cartas (daquelas escritas à mão), eu acho. Mas nunca foram tão requisitados como agora, especialmente para as encomendas expressas que chegam de todos os lugares do país e do mundo para atender a demanda de consumo virtual, nestes tempos de distanciamento. Assim como eles, os motoristas dos aplicativos transportam, cada vez mais, não apenas passageiros, mas uma infinidade de produtos vendidos pela internet e que precisam chegar aos mais diferentes destinos.

De uma hora para outra, as pessoas também tiveram que se adaptar ao denominado delivery, que se estruturou de maneira profissional para servir, principalmente, comida e bebida na porta de casa. Há quem não queira outra vida, mas uma grande maioria, me parece, quer mesmo é voltar a entrar na fila de um buffet livre e esperar até mais de uma hora para fazer uma refeição, com direito à sobremesa e cafezinho.

Vai entender o ser humano! Se antes ansiava pelo final de semana e pelas férias para curtir momentos de calmaria em casa com a família, agora não aguenta mais olhar para a cara da mulher, do marido, dos filhos, do cachorro, da empregada, enfim… acho que sobrou até para o coitado do carteiro e para aquele motorista já conhecido do aplicativo que chega sempre sem máscara para lhe entregar as compras da Amazon.

Por outro lado, há quem não queira mais abrir mão do conforto que é receber tudo em casa, depois de enviar uma simples mensagem pelo Whats ou clicar no link, com débito em conta, e aguardar sentado no sofá, entre um filme e outro, a chegada das mercadorias do Sedex ou a pizza prontinha para ser saboreada no jantar. Vida boa, dependendo do ponto de vista e das circunstâncias de cada um, imposta por uma coisa invisível, que eu nem digo mais o nome para não ser redundante nas crônicas semanais, apesar de isso ser quase impossível para quem escreve baseado nos fatos cotidianos.

Por isso, a caixa lacrada nas mãos do mensageiro tem uma importância tão grande quanto as cartas que recebíamos na adolescência, quando a maioria de vocês, queridos leitores, nem era nascida, provavelmente. Mais do que a ansiedade gerada para ver o conteúdo da compra feita em uma tela de computador ou celular, há outro fator de angústia, especialmente quando ocorre atraso na entrega ou o produto não chega, ecoando incertezas em meio ao rastreamento.

De qualquer maneira, a alegria desses dias de delivery tem sido a mesma de quem algum dia recebeu cartas pelo correio. Não boletos ou faturas a pagar, mas verdadeiros presentes revelados em palavras após semanas de espera para rasgar o envelope e desvendar o conteúdo, com a vantagem de ainda poder colecionar os selos, hoje equivalentes aos cupons de descontos que você recebe para continuar comprando ainda mais e permanecer de olho no portão aguardando o carteiro e o motorista do aplicativo, que trarão a boa nova.

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