De carona

“No dedo”. Poucos vão lembrar, talvez, dessa expressão muito usada nas décadas de 70 e 80, principalmente, quando o dedo polegar inclinado, indicando o sentido para onde queríamos ir, nos levava ao nosso destino, ou muito próximo, de carona.

Carona mesmo, sem aplicativo, sem combinação com os vizinhos e colegas, sem lenço, sem documento e, principalmente, sem dinheiro, que era um dos motivos que nos levavam a pegar carona, além da sensação de liberdade que significava ir para a estrada com os amigos ou sozinhos, e se deslocar “no dedo”, mesmo, sem saber qual carro iria parar e muito menos o horário em que chegaríamos. Uma aventura e tanto, especialmente para a geração On The Road e seus descendentes que ainda circulam por aí, numa rara aparição, como a que vi esses dias.

A moça, despretensiosamente, à margem da rodovia, pedia carona “no dedo”, em pleno século XXI. Em tempos de Uber, táxi, ônibus, metrô e outros meios de transporte, aquela pessoa estava na estrada pedindo carona com uma mochila nas costas. Como nos “velhos tempos”!

Sem dúvida, uma miragem, uma alucinação, em razão dos perigos existentes atualmente em embarcar num carro com um desconhecido e com todos os riscos que isso pode acarretar. Ou não.

carona-solidadria

Pode ser que, por um imprevisto, não houvesse outra alternativa para a moça naquele momento e alguém se dispusesse à leva-la ao seu destino. Também pode ser que estivesse acostumada a ir “no dedo”, por não ter dinheiro ou simplesmente por gostar de pegar a estrada e seguir naquele estilo Easy Rider, com muita adrenalina.

Impossível não sentir uma certa inveja daquele espírito aventureiro que me remeteu imediatamente à adolescência (que terminava, no máximo, aos 18 anos) e ao início da vida adulta que, naquela época, começava cedo (também lá pelos 18, 19 anos), se é que me entendem.

Pegar carona era quase o sonho de todos nós, mesmo dos que tinham dinheiro, já que carro era um luxo para poucos e propriedade exclusiva dos pais, com raríssimas exceções. Cheios de expectativas por novidades, bom mesmo era reunir os amigos e contar, orgulhosamente, que tínhamos ido de Taquara a Tramandaí pegando carona com caminhoneiros e outros motoristas desconhecidos e, ao final de várias horas, ter chegado à praia sãos e salvos para passar o dia e retornar à noite, também de carona, mas com os próprios pais que descobriram a aventura clandestina e acabaram com a festa rapidinho, levando todo mundo de volta pra casa. “E sem um pio”, entenderam?

carona bar

Claro que não queríamos entender e fazíamos tudo de novo, nem que fosse pra ir até Parobé ou Novo Hamburgo, escondidos, “no dedo”, como deve ser para os que ousam e se atrevem a viver intensamente, cheios de histórias pra contar. Sobrevivemos, felizmente, numa época plena de inocência e pouca violência, amizades e companheirismo, muito riso e pouco ou nenhum medo.

Claro que havia perigo e coisas das quais nem sabíamos da existência, até porque não tinha internet e as más (e boas) notícias demoravam muito para chegar, ao menos para nós do interior. Só assim, tivemos a coragem de ir, o que já foi um grande passo para a humanidade, digo, para a nossa maturidade.

Hoje tem até Uber e motoristas particulares compartilhando carona, o que é ótimo, seguro e barato, além de desafogar o trânsito, que está um inferno. Pena não conseguirem agregar aos seus já excelentes serviços aquele sentimento, aquela adrenalina, aquele espírito de aventura e aquele friozinho na barriga que dava diante do desconhecido que parava pra ouvir a clássica pergunta dos caroneiros: – Tá indo pra onde? E a gente embarcava, de carona em carona, “no dedo”, certos de que iríamos e voltaríamos, em segurança, para casa dos nossos pais, sob a proteção inegável de todos os anjos da guarda.

E está aí a banda Cidadão Quem, que não me deixa mentir:

“Carona
A Gente Pega e
Não Escolhe Onde Vai Parar.
Parando
às Vezes Se Aprende
O Quanto Se Pode Andar”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s