Hoje, ao sentar para escrever, voltou a mim a pergunta que mais escuto nas entrevistas:
“De onde vem a inspiração para escrever?”
E talvez a resposta seja mais simples — e mais profunda — do que parece: a inspiração não chega pronta. Ela não bate à porta trazendo certezas. A inspiração nasce devagar, no olhar atento, no sentir profundo e na coragem de transformar o mundo em palavras.
Escrever é aprender a escutar aquilo que quase ninguém percebe. A inspiração mora nas páginas dos livros já lidos, nas poesias marcadas, nas notícias que inquietam e até nas músicas que atravessam o peito sem pedir licença. Quem lê alimenta a própria escrita sem perceber.
Ela também vive nos detalhes pequenos: na conversa esquecida no mercado, na chuva tocando a janela ao entardecer, no silêncio de alguém que queria dizer muito, mas não conseguiu.
Por isso, carrego comigo o hábito de anotar sentimentos antes que desapareçam. Às vezes é apenas uma frase solta. Outras vezes, uma única palavra. E quase sempre aquilo que parecia pequeno se transforma em poesia, crônica ou reportagem.
Gosto de caminhar observando o mundo. Praças, escolas, bibliotecas, ruas movimentadas… cada lugar guarda histórias escondidas, esperando alguém disposto a escrevê-las.
E quando a inspiração demora a chegar, faço perguntas para mim mesma: “E se…?”
“Como seria viver dessa forma?” “O que ainda não tive coragem de dizer em voz alta?”
Porque escrever também é um ato de coragem.
Com o tempo, aprendi que nem sempre escrevemos inspirados. Muitas vezes, a inspiração nasce justamente durante o processo. No instante em que a caneta toca o papel ou os dedos encontram o teclado, algo desperta.
As pessoas também me inspiram. Suas dores, sonhos, saudades, medos e esperanças. Todo ser humano carrega um universo inteiro dentro de si — e a escrita existe para revelar esses universos.
Existe um exercício simples que faço com frequência: escolho uma palavra e deixo que ela me conduza. “Chuva”, por exemplo. E então surgem: infância, cheiro de terra molhada, janela aberta, silêncio, lembranças. E, sem perceber, nasce um texto.
Talvez porque escrever seja exatamente isso: transformar sentimentos em permanência.
E se existe uma verdade sobre a escrita, é esta: quem escreve não vive esperando inspiração. Aprende, todos os dias, a encontrar poesia até nas pequenas coisas do cotidiano.