Miguel Bauer, nossa rua!

A rua Miguel Bauer foi asfaltada. Nada de novo, não fosse essa a rua onde crescemos juntos com nossos amigos de infância e adolescência, em Taquara.

Era nessa via, de chão batido, na época, que aprendemos a socializar, a brincar, a brigar, enfim, onde ampliamos as fronteiras do pátio da casa e da vida.

Depois, quando a maioria de nós já sonhava em alçar outros voos, veio o calçamento com pedras irregulares, novas casas e outros moradores.

Mas o asfalto não apagou as lembranças que carrego daquela rua. Muitas residências continuam as mesmas, outras foram reformadas, despontaram algumas construções novas e vários vizinhos já morreram ou estão longe dali.

Foto: Magda Rabie

Lembrei da Miguel Bauer, especificamente, também, por conta do transcurso do Dia da Consciência Negra, que nem existia naqueles tempos, mas quem morou ali sabe que um trecho da rua era chamado de Vila África, por reunir famílias afrodescendentes com suas tradições e peculiaridades herdadas de seus antepassados negros.

Todos éramos amigos e estudávamos nas mesmas escolas e os pais de alguns trabalhavam na mesma empresa. Preconceito era algo que não existia, ao menos para nós da rua Miguel Bauer, que crescemos, com muito orgulho, juntos, sem muros, sem cor, sem diferenças, sem medo.

Ainda hoje carrego na memória e no coração os nomes da Célia, a benzedeira que nos protegia contra o mal olhado e nos curava de “cobreiros” e outros males do corpo e da alma. 

A risada da Maria, também ecoa até hoje pela rua e em cada portão por onde ela passava para conversar e alegrar a vizinhança. 

Da gurizada que cresceu com a gente, e que não vou lembrar o nome de todos, mas que estará sempre na lembrança carinhosa só de quem morou na Miguel Bauer.

Para nós, todos os dias eram de consciência, de inclusão, de aceitação, de amizade, mesmo sem saber e, até por isso mesmo, foi o que nos tornou seres melhores, não tenho a menor dúvida.

E aos patrulheiros de plantão, por favor, leiam este texto com o mesmo olhar amoroso que temos pela Miguel Bauer. O asfalto é só o pretexto que arranjei para falar da saudade de todos os que moravam e ainda moram ali, dos que se foram, dos que nunca mais vi e da infância de todos nós que sempre foi colorida pela irmandade que nos unia.

O asfalto pode fazer alguma diferença para quem trafega por ali, mas não apaga o cheiro de terra daquela rua que simboliza nossa igualdade e nossas origens

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