Cabeça de papel

Qual a cor do seu país? Verde, amarelo? Com quantos soldados você desfila pela avenida em nome da Pátria amada? Ainda há independência ou a morte impera?

Quem nos redescobrirá em meio à fumaça que destrói? Haverá índios na clareira em chamas? Alguém avista alguma terra neste continente devastado pelo invisível?

Forme seu pelotão e prepare-se para o desfile virtual. No palanque surreal, se aglomeram os mesmos de sempre. Quem lembra da letra do Hino Nacional?

Ouviram do Ipiranga?

O lábaro que ostentas ainda é estrelado?

Marcha soldado, cabeça de papel! Quem não marchar direito vai pra onde, mesmo? Se não responder, bundão, vai levar porrada, certamente, seu otário.

Mas a memória nos salva do pior. Lá, onde ninguém mais acessa, nos vejo perfilados, ensaiando para o grande desfile de 7 de Setembro, em voltas ao redor da quadra da escola antes do grande dia.

A banda toca impecavelmente para exibir-se em frente ao palanque real lotado de autoridades. Não vai chover! Torçam para o desfile ocorrer. Em caso de mau tempo, será transferido para o outro final de semana.

E não choveu! O uniforme impecável brilhando no sol de quase Primavera. A foto desbotou, mas registrou o momento. Éramos jovens, muito jovens, e todos sabíamos de cor o Hino Nacional.

Os mais altos na frente, os mais baixinhos lá atrás. Já os mais talentosos musicalmente, à frente da banda. O bumbo, o tarol, a escaleta e os pratos. Era dia de festa e a rua principal lotada de aplausos nos reverenciava ao passar.

Dias de setembro, ufanismo e saudação à Pátria. Marchávamos com alegria, sim, sem errar o passo. Esquerda, direita, com sapatos lustrosos e meias americanas brancas até os joelhos.

“Era ainda pequeno seu coraçãozinho e ele pequeno sonhava tão alto, ia ser um soldado, ia ser Presidente. Ia pro fundo da casa, vassoura no ombro, ficava sonhando, cantando baixinho…”.  Vem à mente, agora, esse fragmento de canção do coral da escola, de tempos só compreendidos mais tarde, na vida adulta.

Gigantes pela própria natureza, seguimos fortes e impávidos, ansiando pela grandeza do teu futuro, Terra Adorada! Mas entre outras mil, serás tu, Brasil, ainda a nossa Pátria Amada? Que olhe, então, pelos filhos deste solo, ó Mãe Gentil!

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