Artigo: AC / DC – Cenários prospectivos

Você deve estar se perguntando: É a banda australiana de rock? Não, neste texto trataremos do acrônimo AC (Antes Covid-19) e DC (Depois Covid-19) para prospectar possíveis cenários decorrentes deste período de pandemia.

O ano de 2020 ficará marcado na história pelas profundas transformações que provocou e que ainda irá acarretar para a economia, a educação, a saúde, o agronegócio, entre outros, e para a sociedade planetária.

Prospectar cenários pode ser definido, de forma resumida, como um processo sistemático e participativo, que envolve a coleta de informações e a construção de visões para o médio e longo prazo, com o objetivo de subsidiar as decisões tomadas no presente e pôr em ação planos para o futuro.

No atual cenário, o tempo que segue o presente está muito próximo. Nesse sentido, não estamos apenas contabilizando números de casos e mortes. No momento em que escrevo este texto (16/07), os dados brasileiros são assustadores. Segundo o consórcio de veículos de imprensa, a partir de dados informados pelas secretarias estaduais de saúde, o País tem 75.697 mortes por coronavírus e 1.978.236 infectados. No Rio Grande do Sul, são 1.141 mortes e 45.344 casos confirmados, conforme a Secretaria Estadual da Saúde. No painel coronavírus dessa Secretaria (posição 16/07), o Vale do Paranhana registrava 328 casos confirmados (ver Tabela 1).

O conjunto de informações coletadas nos permite prever momentos de muita luta, fortes cicatrizes e profunda transformação global. A pauta para os próximos períodos terá a economia e o social como epicentro dos debates.

Na economia AC, estávamos com uma taxa de desemprego, em fevereiro, na ordem de 11,6%, de acordo com o IBGE.  Já em pleno período de pandemia, até maio (IBGE), foram subtraídos 7,8 milhões de postos de trabalho no Brasil. Destes, 5,8 milhões são de empregos informais (profissionais sem carteira assinada e que atuam por conta própria). A situação tende a se agravar na medida em que muitas pessoas, com medo do vírus, deixem de procurar por postos de trabalho.

Com certeza, o Brasil enfrentará o pior desempenho econômico de sua história com a queda no PIB – Produto Interno Bruto (4,7%, Ministério da Economia) – e com a lenta recuperação econômica. Associada às questões da economia, a crise política que se estabelece já há alguns meses no País, principalmente as divergências entre os estados e a União, deverá ser enfrentada com muita sabedoria. O retorno aos níveis AC ainda levará algum tempo para se tornar uma realidade (12 meses ou mais).

Na esteira da recuperação econômica, encontra-se o agronegócio brasileiro, que, mesmo no período de pandemia, demonstrou ter sido pouco afetado. Haverá um nítido crescimento de consumo nos países ricos no período DC, os quais, na verdade, são os grandes compradores das commodities agrícolas brasileiras (soja, trigo, milho, laranja, carne, entre outros). No mercado interno, a recuperação será mais lenta, pela falta de recursos, o que pode influenciar a disponibilidade e o preços dos produtos, como é o caso do leite. O cuidado deve dar-se em dois ambientes: a) a forma como o governo Bolsonaro enfrenta a crise pandêmica e b) o descaso com o meio ambiente. Em ambos os casos, é perceptível que a imagem do Brasil no exterior ficará extremamente arranhada (ver devastação da Floresta Amazônica), o que levará à perda de negócios internacionais.

Por outro lado, o agronegócio DC será digital. A pandemia acelerou a adoção de tecnologias digitais no agro. Consolida-se a agricultura 4.0 com base no conteúdo digital, na tecnologia de ponta e na conectividade. O avanço do agronegócio dar-se-á por meio de técnicas e manejos que aumentem a produtividade e reduzam os custos de produção no campo.

A reinvenção chegou na educação. Comunidades discente e docente estão se adaptando às novas formas de trabalhar em plena Covid-19. Os desafios são muitos, desde o fechamento das portas nas escolas até a suspensão das aulas no ensino superior. Nessa caminhada, surge um novo normal do processo de ensino e aprendizagem. É um novo mindset para gestores de escolas, universidades, professores, alunos e pais.

O próprio Ministério da Educação, para não perder o ano letivo, homologou as atividades não presenciais de ensino. O ensino presencial e o EaD (Ensino à distância) encontram um novo modelo a ser enfrentado, isto é, o ensino on-line. As aulas ocorrem presencialmente (virtualmente) por meio de plataformas como o Google Meet, Zoom, Teams, Lector, entre outras. Nascem um novo professor e um novo aluno. Os primeiros estão trabalhando como nunca e chegando ao ápice da extenuante rotina de aulas remotas. Do outro lado, estão os alunos, cansados pelo excesso de atividades, com saudades dos amigos e do ambiente escolar/universitário e ansiosos pelo retorno. Portanto, para enfrentar o ‘novo normal’, o foco DC será a formação de um docente preparado para o uso das tecnologias digitais associadas às metodologias apropriadas para o modelo remoto.

No ensino superior, segundo o Semesp – Sindicato das Instituições do Ensino Superior Privado, a taxa de inadimplência ficou em 26,3% em abril, um crescimento de 72,4% na comparação com o mesmo mês de 2019, lembrando que as faculdades particulares são responsáveis por 75% do total de matrículas no ensino superior no Brasil. O momento deverá levar a uma guerra das mensalidades entre as IES – Instituições de Ensino Superior. Não há lei que obrigue as instituições a ofertarem descontos, mas já existem movimentos nesse sentido.  A pauta futura no ensino será a gestão da permanência, da otimização de custos e da captação de alunos descrentes e assustados.

Por fim, a área da saúde. O Brasil nunca foi um exemplo perfeito de saúde pública. Embora nosso Sistema Único de Saúde (SUS) seja um dos mais bem ‘pensados’ do mundo, sua execução sempre deixou a desejar. Até o início de março, havia uma média de 2,62 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes, o que nos coloca à frente de países que já estão encarando a pandemia de maneira dramática, como a Itália (Fernando Torelly, CEO do HCor). Segundo recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Ministério da Saúde, a relação ideal de leitos de UTI é de um a três leitos para cada 10 mil habitantes, e o Brasil apresenta a proporção de 2,2 leitos, o que, de forma consolidada, é satisfatório. Mas, quando a análise é mais detalhada, segmentando os dados entre o sistema público e o privado, por exemplo, o SUS tem uma média de 1,4 leitos para cada 10 mil habitantes, contra 4,9 da rede privada (AMIB – Associação de Medicina Intensiva Brasileira).

A região Sul do Brasil está com a média acima dos parâmetros da OMS. Ela oferece 6.559 leitos de UTI, sendo 4.175 deles na rede pública e outros 2.384 na rede particular, o que, no total, mostra uma proporção de 2,2 leitos por 10 mil habitantes – 1,8 no SUS e 3,5 no particular. Mesmo sendo uma das regiões com melhor atendimento, o que se vê no momento (16/07) é o agravamento da Covid-19 nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Entretanto, nossos desafios serão políticos (governo federal na contramão das políticas internacionais), sociais (falta de saneamento básico, por exemplo) e técnicos. Para superar a primeira onda e as vindouras, será necessário ampliar a capacidade de diagnóstico, melhorar o rastreamento de contatos e a visualização da cadeia de transmissão, endurecer as medidas de distanciamento social, evitar o esgotamento do sistema de saúde, entre outros desafios.

Precisamos continuar fazendo a nossa parte, isto é, cumprindo as orientações de prevenção e distanciamento social. De outro lado, uma gestão eficiente dos leitos de UTI e o controle efetivo dos registros de casos permitirão vislumbrar um futuro melhor. Sermos mais resilientes, ágeis e adaptáveis ao novo normal é, pois, necessário.


Artigo produzido pelo docente do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional das Faculdades Integradas de Taquara (FACCAT), Prof. Dr. Roberto Morais – Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Faccat e Vice-Diretor de Pesquisa e Pós-Graduação

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