Tia Carmem

A notícia do fechamento da famosa casa noturna da Tia Carmem, em Porto Alegre, repercutiu com tristeza entre seus frequentadores ou admiradores. A morte anunciada foi lamentada por quem conhecia a proprietária e o local, uma referência na capital gaúcha, assim como a Gruta Azul e outras casas do gênero que ainda existem por aí.

Imagino que, com essa pandemia, muitas delas já sucumbiram ou fecharão suas portas, como centenas de outros estabelecimentos comerciais que, assim como estes, empregam pessoas que vivem dos prazeres da vida noturna e têm a prostituição como meio de sobrevivência.

Embora o assunto seja tabu ou hipocritamente camuflado pela maioria dos cidadãos, impossível deixar de pensar neste ramo de trabalho e imaginar as dificuldades que as acompanhantes dos clientes devem estar passando, assim como os próprios clientes, em distanciamento.

Para quem acompanhava a movimentação recente, especialmente no verão, às margens das rodovias da região, onde dezenas de mulheres “prospectavam” até pouco tempo clientes para garantir o pão de cada dia, há uma ausência quase tão melancólica quanto o olhar daquela jovem que aguardava algum contato sempre sentada sob uma árvore à beira da estrada.

Sempre tive curiosidade de entrar em uma dessas casas noturnas, principalmente em Taquara, município que foi referência em se tratando deste assunto, com belas mulheres e clientes famosos, como políticos e outras celebridades conhecidas, que frequentavam grandes boates como a Centauro e a Apolo 11, que não existem mais, e outras que surgiram mais recentemente e que talvez ainda estejam na ativa.

Essa é outra curiosidade que me vem à mente porque duvido que não haja algum cliente em busca de algum momento de prazer e descontração, mesmo com todos os apelos para o distanciamento entre as pessoas. Será possível manter dois metros de distância das garotas de programa que vivem disso? Sexo, para alguns homens e mulheres, é a conexão com tudo o que eles têm de mais primitivo e deve ser desesperador transar passando álcool gel pelo corpo todo.

Acredito que a profissão considerada a mais antiga do mundo não desaparecerá, ao contrário de milhares de outras funções burocráticas e ditas “decentes” que já se extinguiram, também por falta de clientes. As moças da Tia Carmem e das demais casas noturnas do Brasil e do mundo sempre estarão à espera de alguém, atendendo desejos alheios para sustento próprio ou de suas famílias.

Há várias Tias Carmens falindo por aí e talvez seja o momento de prestar solidariedade a quem tem o corpo como mercadoria, mas que não aparece nos registros oficiais dos desempregados. Hão de sobreviver, com certeza, mas vai ser difícil um novo normal para quem precisa do outro, qualquer outro, para manter o negócio de pé e a comida na mesa.

Um comentário

  1. Interessante tema Rose, num mundo repleto de diversidade, profissões, profissionais autônomos ou não, essenciais ou não, complicado tudo isso, e onde muita gente vai perder, já perdeu, mas o que será do amanhã amiga, pura incerteza, e segue a caminhada na esperança de dias melhores.

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