Todo mundo

Levanta a mão quem nunca pensou em dar uma fugidinha, bem rapidinho, para ir a uma festinha ou a um boteco cheio de gente ao longo dessa quarentena, que já virou noventena? Quem não está doido para sair rua afora e ficar horas jogando conversa fora com amigos ou ilustres desconhecidos naquele pub da esquina? Quem? Heim? Não minta que é feio!

Tenho certeza de que você, caro leitor, assim como eu e todo mundo, está doido para se aglomerar por aí, sem máscara, gritando, rindo, correndo caminhando e tomando chimarrão ou uma cervejinha com um monte de gente, sem medo. Confessa! Está doido, sim, pra descumprir as regras de distanciamento, só que não pode! Entendeu?

Certamente, você está acompanhando o noticiário e assistindo ao esforço das autoridades para conter as tais festas clandestinas que estão ocorrendo em vários lugares aqui na região e no país. Quase impossível reter em casa os jovens, principalmente, justamente porque é proibido. Essa é a palavrinha mágica que leva centenas de pessoas para locais de música duvidosa, ou não, para dançar, beber e namorar, simplesmente porque carregam a tarja preta de “não pode”. É proibido, e pronto! O que já é motivo suficiente para todo mundo querer ir.

Mas, como dizia a minha mãe quando eu era adolescente, “tu não és todo mundo”, e estamos conversados. Um “não” como aquele era definitivo. Não era não, mesmo que a vontade de transgredir permanecesse. Naquela época, e já faz um tempinho, ninguém sabia o que era uma pandemia. Acho que gripe era o máximo que alguém poderia pegar, antes da chegada da Aids, mas isso é outro assunto. Havia, isso sim, pais fiscalizando e colocando limites. E, com algumas exceções, a gente ficava em casa, furioso, diante da proibição para frequentar determinados lugares.

Claro que tinha festas bem clandestinas na nossa adolescência, também, principalmente em sítios isolados, na praia ou na casa dos pais daquele amigo que sempre estavam viajando. Cada encontro desses era um acontecimento e um pacto de sangue entre nós. Ninguém abria a boca para revelar o que ocorria na “clandestinidade”, e às vezes não acontecia nada de importante, mesmo, caso queiram saber, embora eu não revele mais detalhes por fidelidade aos queridos amigos envolvidos, hoje respeitáveis pais de família que poderiam ser desmoralizados diante dos filhos que estão doidos para dar uma fugidinha nesta  quarentena.

O proibido atrai e desafia a romper limites. O ser humano sempre transgrediu normas e leis, regras e determinações impostas pelas autoridades, o que não é correto, obviamente, com ou sem pandemia. O brasileiro, porém, é o povo que tem se mostrado mais rebelde e resistente às mudanças impostas no momento atual. Há quem ignore totalmente todas as determinações, propositalmente, como adolescentes negacionistas, doidos para se amontoar por aí, na tentadora clandestinidade.

Sei o que sentem os jovens nesta briga entre o certo e o errado, prontos para desviar o caminho e seguir o rumo errado para ter uma grande história para contar depois ou mantê-la em segredo, no pacto de fidelidade aos amigos.

Tenham certeza, porém, de que, assim que tudo terminar, todos estaremos em festas, churrascadas, shows e eventos. Numa bela manhã de domingo, quem sabe, abriremos a porta da frente de casa e dispararemos rua afora, com o sol atestando que tudo voltou ao normal, ou quase.

Quero passar um mês em maratona pelos bares e correndo pelas ruas mundo afora, também. A euforia, talvez, só não fará sentido aos que ainda argumentarão que antes era mais divertido e que essa tal de pandemia nunca existiu, ao menos para quem fugiu clandestinamente para um outro mundo paralelo a este, também conhecido como País das Maravilhas.

Este mesmo país que só existe na ficção e na mente fértil de quem delira e se questiona, como a personagem Alice, do livro de Lewis Carroll: – “Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então”.

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