A angústia em tempos de coronavírus

O que tanto nos assombra está pairando no ar e não pode ser capturado, nem tampouco pode ser visto pelos olhos. Como nos defender assim? Onde está o inimigo que nos assombra tanto? Todas essas angústias envolvem nossos afetos, porque somos seres sociais e também porque entendíamos que abraçar era uma demonstração amável, quando agora o inverso o é. É exigida uma ação de cuidado que envolve o não tocar fisicamente em si e nem no outro. Sentir-se seguro no meio de um abraço, por hora não é possível mais e esse simbólico tão representativo nos leva a pensar sobre nossas angústias em tempos de coronavírus.

As nossas defesas reagem quando as incertezas aparecem e por vezes a negação dessa catástrofe se mostra como uma saída aparentemente confortável. Só que quando nos deparamos com tantas notícias a negação perde a força e realidade está bem ali, nua e crua, contradizendo desejos. Mas o que fazer com o nosso Ego insultado? A verdade é que não somos invencíveis, como pensávamos e, ainda mais, temos limitações. Somos frágeis e neste cenário incerto, os recursos de defesa estão acionados. Reagimos das mais diversas formas que podem beirar extremos de rituais de limpeza a ficar alienado e relutante às limitações do momento, sem trazer para a consciência o afeto em  tamanho real.

solidão_corona

Emergências da atualidade em um momento tão específico e singular, pode nos causar estranheza e avançar energicamente sobre o psiquismo, lembrando do nosso desamparo infantil. Quando bebês necessitamos da ajuda do outro, que nos ofereceu a sobrevivência. Mas e agora? Estamos experimentando privações que frustram. As  perspectivas de futuro estão abaladas e estas questões interferem na identidade psíquica de criações imaginárias. As angústias aparecem como terrores não possíveis de serem nomeados e crises acabam por serem derramadas no corpo. Arritmias, palpitações, apertos no peito, disfunções do sono, são alguns sinais que mostram que os afetos estão fora do controle, pois afeto é aquilo que nos afeta. E como passar por essa pandemia de maneira equilibrada? Se o que temos agora são incertezas, a segurança pelo plano de vida que havia sido construída, por hora não pode estar em prática e talvez as coisas não serão como antes, ou serão? Não temos respostas. Talvez vamos precisar usar de  recursos criativos e cada um subjetivamente, sem uma fórmula mágica, terá a oportunidade de se reconstruir, com outros desejos e valores.

Quanto a saúde mental, temos o caminho de  colocar em palavras nossos monstros representativos de terror e assim dar-lhes um outro significado. Nossas memórias e registros infantis recalcados, estão à tona e contribuem para nos sentirmos desamparados. As angústias que ficam soltas no aparelho psíquico nos fragilizam  causando um sofrimento ainda maior. E de onde vem tudo isso? Poderiam ser os desejos de explicações imediatas para controlar o incontrolável e ter a falsa satisfação de onipotência? Talvez! A inconstância faz parte do viver, só não estava tão aparente, mas agora está. Olhar para nossas fragilidades é um caminho, absorver psiquicamente as angústias e lhe dar o significado é saída para evoluirmos neste processo sem adoecer. Estamos convocados ao distanciamento físico e a experimentar o uso das palavras ao invés do toque e o pensamento ante a ação, num processo simbólico de reconfiguração.  É possível que nos sintamos intolerantes ou ter impaciência até, mas se trata, quem sabe, de uma oportunidade para estarmos mais perto de nós mesmos ao som dos sentimentos que somos capazes de criar e recriar.

 

Tatiana Kunst

*** Artigo de autoria da psicóloga Tatiana Kunst

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s