Seu Orlando

Seu Orlando era uma daquelas pessoas puras e felizes por sua própria natureza. Sujeito simples, de uma criatividade incrível de formar frases engraçadas, vivia sossegado com a Dona Rosa, esposa e fiel companheira, na localidade de Evaristo, interior de Santo Antônio da Patrulha.

Tínhamos contato com o Seu Orlando por causa de sua filha, Zê, e do genro Rodrigo, que são grandes amigos nossos. Era muito comum sermos convidados a participar dos aniversários do Orlando e da Rosa. Pensem numa recepção simples, mas carregada de amor e de simpatia! Era como se estivéssemos em nossa casa ou de algum familiar nosso. Era um banquete, muitas vezes com as coisas produzidas no próprio sítio. E a volta para casa sempre reservava uma distribuição de produtos da propriedade, que possibilitava o adiamento da feira da semana na cidade.

Seu Orlando - fotos

Fizemos alguns passeios juntos, como idas à praia. Não tinha como ficar mau humorado ou com fome. Uma vez levamos tanta comida que se fosse uma época como agora, de quarentena, estávamos garantidos por muitos dias. Como brincava dona Rosa, “podemos ficar roendo o dia inteiro”.

Seu Orlando gostava de uma boa cerveja, de uma caipirinha, de um churrasco, de música, mas gostava muito mais dos amigos e da família. Era efusivo, original, simples, contagiante.

Ele deixou-nos relativamente cedo, vitimado por complicação de um AVC. Mas também deixou um enorme vazio e muita saudade, marcadas por uma série incontável de coisas boas e vivências.

Seu Orlando

Lembrei do seu Orlando, nesses tempos de quarentena, observando o que ocorre a nossa volta nesse momento de reclusão forçada. Penso, assim como minha esposa e alguns amigos, que esse é um momento de refletirmos e tentarmos sairmos melhores e mais conscientes.

Me causa certa estranheza e até uma certa aversão abrir as redes sociais e ver as pessoas engajadas em discussões sem fim, ou pior, politizando e muitas vezes procurando argumentar para justificar decisões que não nos pertencem, que na verdade são de quem deveria nos representar. Tem ainda uma profusão de formados em “Grey’s Anatomy”, roubando a expressão que minha ex-colega da área da saúde usou dias atrás. Também me causa certa repulsa o individualismo de muitas pessoas, que literalmente olham apenas para o próprio umbigo.

Seu orlando - luz

Mencionei o amigo Orlando porque ele tinha pouco acesso a tecnologia, mas tinha muitas qualidades e valorizava o contato com as pessoas. Sabia respeitar e ser respeitado. Seu Orlando era simples e feliz, como tentamos ser aqui em casa. Valorizava a família e amigos, estava sempre pronto para os abraços, que agora nos fazem tanta falta, pois só podemos (os conscientes e responsáveis) fazê-los virtualmente.

Seu Orlando valorizava os encontros e é assim que nós queremos cada vez mais agir. Já tentávamos isso antes da pandemia do Coronavírus. Agora pretendemos valorizar ainda mais.

Mas o que Seu Orlando tinha bastante era fé. Uma fé constante, de que o dia seguinte podia ser melhor, mas a gente precisava primeiro acreditar.

Seu Orlando - vibes

Num momento como esse, em que nos sentimos privados de muitas coisas que nos são importantes, especialmente o contato com nossos familiares e amigos (que muitas vezes também são nossa família), mantenhamos a esperança, mantenhamos a fé. Isso tudo passará, não sem sacrifícios, mas passará. Sairmos melhores e mais fortes dependerá de cada um de nós, pois capacidade não nos falta. Que sejamos um pouco mais resilientes, mais alegres, mais humanos, como era Seu Orlando. Porque o legado sempre fica, e as marcas e transformações que motivamos podem ser eternas.

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