Tapume

A casa, que antes contemplava um horizonte inteiro e o mar sem fim, já não tem mais vista. A praia está lotada de gente e, consequentemente, de novos prédios, cada vez mais altos, que cobrem o sol e espalham sombra até na areia, a perder de vista ou a perder, literalmente, a vista do pequeno chalé espremido naquela quadra privilegiada, em outros tempos, claro, quando aquilo tudo era um luxo para poucos.

Agora, a construção gigantesca avança se esparramando sobre os chalés ou as casas de veraneio mais antigas que ainda resistem. Não tardará, sucumbirão também, se rendendo à inevitável especulação imobiliária. Ou não.

Com muito esforço, entre as dezenas de imóveis à venda no litoral, ainda é possível ver, entre um e outro novo prédio de 10, 12 ou mais andares, aquela velha casinha com varanda de frente para o mar. Ali ainda há veranistas, por incrível que pareça, a se espreguiçar na rede, a cortar a grama do pátio e a esticar o olho para além da rua que desemboca no mar.

Rede

Cena um tanto nostálgica que revela o quanto de espaço precisamos para viver, sobreviver ou simplesmente para nos refugiar do caos. Para alguns basta uma janela aberta por onde passa uma nesga de sol. Para outros, são necessários muitos metros quadrados de sacada com vista privilegiada do vigésimo andar, antes que construam mais um paredão no terreno baldio em frente.

Na cidade ou na praia, também há quem só queira sentar na varanda e poder ver o céu, o mar, as estrelas e talvez as pessoas passeando com seus animais de estimação na calçada após um dia exaustivo de trabalho. Ou deseja férias em pequenos fragmentos de saudosismo, capazes de resgatar a humanidade e a sanidade, que é o que esse monte de gente empilhada na areia procura, mas nem sempre encontra, porque há outro monte de gente no guarda-sol ao lado querendo apenas se esparramar, gritando e sassaricando com direito à trilha sonora de gosto duvidoso.

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Aliás, tem gosto pra tudo, o que é justo e aceitável, o que não justifica a falta de educação que impregna de lixo e polui qualquer vista, por mais linda que seja. E isso tem de sobra no litoral.

Talvez faltem, mesmo, mais casinhas com varanda para relaxar além do corpo. Mais conversas longe do celular. Gaivotas e pardais, peixinhos e água limpa, o que tem se tornado mais raro do que a vista que se perdeu.

Tomara que o chalé espremido entre dois prédios naquele canto da praia sobreviva à ganância ou à falta de recursos. Que ele abrigue mais algumas histórias e possa ser paradouro de contemplação para mais uma geração, quem sabe, capaz de manter de pé por mais algum tempo as paredes da casa e o desejo sem fim daqueles que ainda sonham em ver o mar.

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