O circo chegou!

Tem circo aqui na cidade. Eles chegaram esta semana alardeando as atrações para encantamento das crianças e também dos adultos. Sim, porque o circo é um evento para todos os públicos, em qualquer época.

Quem resiste às brincadeiras do palhaço, às surpresas do mágico, à dança das partners, à emoção do trapézio? Ao avistar a lona colorida, voltamos a ser crianças em qualquer idade, respeitável público!

No meu tempo de infância ou pré-adolescência, a euforia tomava conta, principalmente, com o Teleco, que misturava atrações circenses com teatro, levando por muitos anos o nome de seu fundador, já falecido. Não sei se os seus descendentes ainda prosseguem com o projeto nesses tempos em que a arte e a cultura não têm mais o menor reconhecimento e valor.

Teleco
Foto: Reprodução Facebook/Circo Teatro Teleco

Aliás, acho que as trupes mambembes convivem melhor com o descaso porque nunca tiveram apoio, mesmo, e, apesar disso, também nunca desistiram. Seguem erguendo a lona em qualquer cidade que os receba com um espaço e o carinho da comunidade, de braços e mentes abertos.

Assim se faz a cultura que nos permite armazenar memórias, vivências, aprendizados e lindas lembranças desde a tenra infância. Nada sofisticado, nada de ostentação. O artista vai aonde o povo está e ali estabelece as primeiras relações dos pequenos com o mundo da arte, por mais singela que ela seja.

Prova disso é que o Teleco faz parte até hoje das recordações de muita gente, principalmente das matinês aos domingos à tarde, quando a programação era voltada aos mais jovens. Tinha fila, tinha Maçã do Amor e tinha nariz de palhaço de plástico para rir à vontade e esquecer o desconforto das arquibancadas, porque nas cadeiras era bem mais caro.

Teleco viverá para sempre na memória daqueles que, como eu, moradores de pequenas cidades do interior, não podiam ir sempre ao cinema, muito menos assistir à uma peça ou a um espetáculo famoso na capital. Não havia recursos nem condições de deslocamento para isso.

O que nos salvava a infância e a inocência era o circo, o Teleco e os parques de diversões montados de tempos em tempos em algum terreno baldio da cidade. Sem isso, acho que nos roubariam o essencial: o direito à fantasia e à imaginação.

Circo.jpg

Hoje, em tempos de internet ilimitada, plataformas de streaming e uma infinidade de opções culturais (e outras nem tanto), não é preciso mais sair de casa para nada. Ganha-se em conforto, mas perde-se a infância, apaga-se o brilho do olhar diante do sorriso do palhaço que resiste sob a lona remendada.

Sem encantamento, as crianças tornam-se adultos passivos de outro tipo de palhaçada que invade nossas casas diariamente. O circo mudou de cenário, é transmitido ao vivo a qualquer hora, em todos os lugares simultaneamente e tem como artistas personagens dos altos escalões do governo.

Não tem Maçã do Amor, não tem lona, não tem graça. Nem fila com direito a ingresso, reservado apenas para os convidados eleitos. Já ao não respeitado público, resta apenas colocar o nariz de palhaço e esperar que, um dia, este circo pegue fogo e outro surja em seu lugar, como este aqui na esquina do qual nunca ninguém ouviu falar; que certamente nunca recebeu verbas da Lei Rouanet; que nunca foi incluído no calendário turístico dos eventos oficiais, mas que sabe que hoje e sempre vai ter marmelada, sim senhor, beneficiando, como num passe de mágica, os protagonistas do “maior espetáculo da terra” que você assiste todos os dias em rede nacional.

E aí? Vai de cadeira ou arquibancada?

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