Sob a luz dos jacarandás…

Um olhar atento aos noticiários da imprensa, especialmente na TV, denuncia, rapidamente, imagens cada vez mais amadoras de vídeos editados ou captados por celular, que viralizam como informação. Os próprios repórteres se desdobram para filmar, fotografar, entrevistar e comentar ao mesmo tempo, numa demonstração de que há uma maneira cada vez mais “econômica” de se fazer jornalismo, sob o argumento de que os profissionais, agora, são multimídia, unificados em todos os veículos e capazes de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.

Nada de tão novo neste front, onde os jornalistas já batalham há bastante tempo, mas nunca tão sozinhos como agora, atuando em múltiplas áreas, simultaneamente, onde até pouco tempo eram necessários três ou mais profissionais para operacionalizar tudo isso.

Selfie_

Mas o que mais me assusta é essa ansiedade, transformada em instantaneidade. O celular virou uma arma perigosa apontada para qualquer um. Num gesto impulsivo, numa balada, em um momento de solidão, raiva ou insensatez, o cidadão vai lá e grava um vídeo dizendo tudo o que pensa (ou não pensa) sobre qualquer assunto.

Num instante, as imagens ganham as redes sociais e, consequentemente, já estão sendo veiculadas nos noticiários via WhatsApp. Dependendo da importância que a imprensa dará a esse fato que, na maioria das vezes, sequer teve a veracidade devidamente checada.

O que acontece depois todo mundo sabe. O ilustre autor do vídeo ofende quem bem entende, dizendo barbaridades. Na sequência, antes de ser linchado publicamente, apaga o vídeo das redes sociais e faz outro, imediatamente, pedindo desculpas.

Perdoem, senhores, mas isso já está virando uma piada de mau gosto, com respaldo de alguns segmentos da imprensa. Se conselho fosse bom, eu diria, não repliquem asneiras e ignorâncias. Ignorem as lives e os tais cinegrafistas amadores com seus celulares apontados para tudo e para todos, prestes a postar qualquer conteúdo, sem noção, sem análise, sem educação.

Educação, aliás, é o que nos falta. Carecemos de argumentação, de sustentação. De nada adianta portar equipamentos tecnológicos de última geração e não compreender o que acontece à sua volta, por absoluta falta de discernimento, de entendimento, de reflexão e pensamento crítico.

E se conselho fosse bom, eu diria, novamente, com toda a convicção: desliguem esses celulares e abram suas mentes com livros, talvez. O tempo perdido em imagens que se transformam em lixo instantaneamente poderia ser preenchido com letras, palavras transformadas em poesia, em literatura e conhecimento.

Leitura

É bem mais barato e ainda aplaca surtos de ansiedade, fobias e transtornos compulsivos, repulsivos, como este de fotografar e filmar tudo para a tal posteridade. Até porque, hoje ela dura nada mais que alguns segundos, mas causa prejuízos de longo prazo, dependendo das penas jogadas ao vento (ou na internet).

Em tempos de tempestades intermitentes, melhor sossegar a alma na companhia de grandes escritores, mestres do eterno aprendizado registrado em livros, única luz contra a ignorância que assombra nossos dias.

E para quem ainda não perdeu a esperança, lembro que começa neste final de semana 65ª Feira do Livro de Porto Alegre, com um mundo de possibilidades além das telinhas e telonas. A chuva estará presente, como em todas as edições anteriores, assim como as grandes estrelas, os livros e seus autores, nessa maravilhosa festa literária.

Praça da Alfândega

Se sobrar um tempinho, até dá pra fazer selfies e algum vídeo junto às atrações da feira na Praça da Alfândega, mas sem arrependimentos, por favor. Os jacarandás não perdoam!

 

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