Escritor Henrique Schneider participará de bate-papo na Manas Livraria nesta quarta-feira

O premiado escritor Henrique Schneider estará em Igrejinha na próxima quarta-feira, 30 de outubro. Ele participa de um bate-papo com leitores na Manas Livraria sobre o seu mais recente livro “Setenta”. Lançada em 2017, a obra foi vencedora na categoria Romance do Prêmio Paraná de Literatura naquele ano – um dos mais importantes do país.

Para Narete Santos, proprietária da Manas Livraria, estes momentos são extremamente válidos. Ela reafirma o compromisso com o incentivo a literatura e a valorização dos escritores da região. Ela projeta um belo encontro na quarta-feira. “Vai ser um bate-papo ótimo. O autor é extremamente bacana e vai ser uma oportunidade de conversar sobre esse tema tão importante dos anos 1970”, comenta convidando a todos para participarem.

A obra e o autor

Setenta” foi construído para ser um relato, um testemunho da década e um refresco para aqueles que ainda pedem a intervenção das forças armadas. A obra conta a história de Raul, um bancário dedicado, cidadão de bem que leva uma vida tranquila em junho de 1970. Ele destina todas as suas energias ao trabalho e a política não lhe interessa. Até que um dia, em meio ao clima de euforia patriótica às vésperas da final da Copa do Mundo, ele é confundido com um militante, preso e atirado em uma cela para confessar algo que não sabe. A partir daí, o jogo vira e ele passa a viver o que de mais terrível aconteceu no Brasil nos anos de chumbo.

Advogado e escritor, natural de Novo Hamburgo, onde mora até hoje. Publicou seu primeiro livro em 1984, ainda na época da faculdade. De lá pra cá, diversos títulos consagrados integram sua lista, garantindo importantes reconhecimentos na carreira, entre eles: O grito dos mudos (Prêmio Mauricio Rosemblatt de Romance), Contramão (finalista do Prêmio Jabuti) e Respeitável Público (finalista do Prêmio Açorianos).

 

Confira a entrevista exclusiva com o autor:

Setenta-Henrique Schneider-Manas Livraria

Drops do Cotidiano: O que o público pode esperar de “Setenta”?

Henrique Schneider: Costumo dizer que o escritor escreve, no máximo, 70% do seu próprio livro. O restante será escrito pelo próprio leitor – por seu histórico, crenças e experiências pessoais. Assim, é difícil responder esta questão, mas se eu puder esperar que o público leitor espere algo do “Setenta” (a frase é essa mesma…), que seja algum entretenimento, algum incômodo e bastante reflexão.

D: Por que trazer o tema da ditadura em destaque através do livro neste momento atual?

H: É preciso ressaltar que o livro foi escrito antes do processo eleitoral e da eleição em si. Mas foi escrito durante as manifestações que acabaram culminando no golpe (que parcela da população considera impeachment) dado na então presidenta Dilma Rousseff. Vendo aquelas manifestações – nas quais havia gente bem intencionada e gente nem tanto – , resolvi escrever esta história por dois motivos maiores (e que estão entrelaçados): 1) a necessidade de falar sobre o assunto, porque se fala muito pouco a respeito, a ponto de começar a existir uma espécie de ‘negação’ da existência da ditadura; 2) o medo, por conta de cartazes e manifestações (tipo “O erro da ditadura foi só torturar e não matar” “Por que não mataram Dilma”, coisas assim), pedindo a volta da ditadura e carregados por uma garotada que já nasceu numa época de democracia mais plena, que já ‘nasceu com todos os direitos garantidos’, algo assim. Paradoxal e assustador: uma garotada indo para as ruas para pedir a volta de um regime em que não se pode ir às ruas.

D: Apresentado em 2017, vencendo prêmios e em destaque nesse ano com ações de lançamento, como avalias o momento histórico atual com o dos anos 1970?

H: É um pouco difícil fazer comparações. Mas é inegável que temos uma onda que vai além do conservadorismo e que parece não enxergar problemas na retirada de diversos direitos sociais, na falta de respeito às minorias, que acha que ‘bandido bom é bandido morto’, coisas assim. E isso pode ser perigoso. É desta forma que o ovo da serpente é chocado. Nos últimos tempos temos vários fatos que me assustam, como por exemplo: 1) a nomeação de uma araponga da ABIN para ser ‘assessora especial’ da reitoria de uma universidade federal; 2) intervenções em institutos federais; 3) invasão policial de uma reunião regular de um partido legal, em São Paulo, com todo mundo tendo que mostrar documento de identidade; 4) policiais filmando palestra de um diretor da SBPC; 5) torcedor do Corinthians sendo preso por gritar contra o presidente; 6) deputados invadindo o colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro (e sendo expulsos pela garotada), porque queriam ‘fiscalizar’, coisas assim…

D: O que é real e o que é ficção em tua obra?

H:No Setenta, tudo é real e tudo é ficção. A trama em si é uma construção autoral. No entanto, tudo o que é contado no livro aconteceu: a tentativa de sequestro, prisões ‘por engano’, havia centros clandestinos de tortura em Porto Alegre, aconteceram torturas…

D: Qual a importância do Prêmio Paraná, recebido por este livro?

H: O Prêmio Paraná é um dos mais importantes prêmios literários brasileiros, bastante respeitado. Prêmios sempre são uma espécie de ‘aval’ à carreira do escritor.

D: Como você percebe as semelhanças e diferenças do teu trabalho nessas mais de três décadas como escritor?

H: Eu era uma espécie de escritor ‘bissexto’, tanto que fiquei muito tempo sem publicar. Hoje, me considero um escritor profissional, levando a literatura como algo essencial. Meu trabalho de escritor é compromissado e sempre foi (uma semelhança); talvez minha literatura seja um pouco mais ‘simples’ hoje, tentando fazê-la fluir mais, porque o romance (gênero que mais escrevo) precisa também ser entretenimento.

D: Da tua trajetória de mais de 30 anos como escritor, como enxergas a literatura e sua contribuição para a sociedade?

H: Escrevemos para poucos, a média de leitura brasileira é muito baixa. É uma pena, porque a literatura é redentora: quem lê sabe mais, tem mais assunto, pensa melhor, tem mais profundidade na abordagem de temas e, fundamentalmente, tem mais chance na vida.

D: Qual a tua relação com Igrejinha? E com a Manas Livraria?

H: Sou um parceiro da Manas. Admiro muito o trabalho de livrarias que ‘teimam’ (é essa a palavra) em promover literatura no interior. Sou um escritor do interior e sei o quanto isso é difícil. Já estive várias vezes na livraria, fazendo leituras ou bate-papos com leitores, e é sempre uma alegria.

D: Qual a importância desses momentos de encontro com os leitores?

H: Acho ótimo, porque aproximam autor e leitor e, dessa forma, ajudam a desmitificar a literatura.

 

SERVIÇO:
O que: Bate-papo com Henrique Schneider na Manas Livraria
Quando: Quarta-feira, 30 de outubro, às 19h30
Onde: Manas Livraria (Rua das Pedreiras, 159, Bairro 15 De Novembro, em Igrejinha)
Evento gratuito
* O livro está à venda na Manas Livraria por R$ 39,90

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s