De cabelos brancos

Um aplicativo que simula o envelhecimento ganhou vários seguidores em uma rede social, nas últimas semanas, viralizando imagens de famosos e anônimos com rugas e cabelos brancos num futuro distante (ou nem tanto). O fato não deixa de ser curioso e até intrigante, já que a maioria das pessoas, hoje, independentemente da idade, busque justamente o contrário: a fonte da eterna juventude, seja por meio de cosméticos de última geração ou intervenções cirúrgicas.

Se na vida real ninguém quer envelhecer ou aparentar a idade verdadeira, no mundo virtual as pessoas usam e abusam de um aplicativo que as torna mais velhas propositalmente, para todo mundo ver.

Um paradoxo, como tudo o que circula nesse mundo, sintetizando, também, um pouco da confusão que se estabeleceu entre o real e o virtual. Formas diferentes de experienciar o que ocorre, mas também atrapalhadas em conteúdo, sem o devido discernimento do que realmente existe e do que é apenas imaginação.

Na tela, tudo é uma coisa só e já não se sabe quem é o criador e a criatura. Será aquele jovem a imagem e semelhança de seu avô em alguns anos ou o próprio avô, brincando de ser quem realmente é, em postagens sem filtro?

FaceApp-uso

A brincadeira do envelhecimento virtual me parece, também, uma tentativa de aceitação do inevitável. Subliminar e inconscientemente, ninguém quer envelhecer, mas ao mesmo tempo ninguém quer morrer. Então, não há outra saída, senão envelhecer. E, envelhecendo, certamente um dia a morte virá para todos, embora alguns nem tenham tempo para isso e partam prematuramente.

Há quem diga que este aplicativo, como tantos outros, seja apenas uma forma de roubar todos os dados de quem entra na brincadeira ingenuamente, sem saber que está sendo hackeado em sua intimidade, em qualquer idade. Mas a internet tornou-se um espaço “democrático”, para jovens e velhos, de qualquer raça, cor sexo e tudo o mais de bom e de ruim que possa existir. Não há como barrar a curiosidade humana.

E aí, basta um click e lá está sua foto atual, aos 30 anos, com aparência de 80, obtendo muitos likes. Assim, fica mais fácil envelhecer, talvez, com alto índice de aprovação virtual, embora na prática a gente saiba que a “melhor idade” é a que temos agora, com saúde e disposição.

FaceApp

Ainda que o relógio cronológico não pare e o corpo siga seu ritmo biológico, bom mesmo é investir, sem filtros, nessa imagem que vemos refletida todos os dias no espelho, ao acordar, e que é a única que teremos, até a velhice. Caso contrário, é possível que amanhã reste como lembrança apenas a foto do aplicativo, numa simulação de como poderíamos ser na velhice que não chegará para aqueles que forem “deletados” antes, aleatoriamente, por força maior do destino ou seja lá o que for.

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