O clube nosso de cada dia – Doralino Souza

Passa das quatro horas da tarde. Estou nessa sala desde as onze da manhã. A ideia é falar com um editor com quem fiz contato por e-mail. Eu lhe mandei alguns contos na esperança de ter meu livro publicado. Uma reunião fora marcada. Enquanto espero, leio o livro Clube da luta, de Chuck Palahniuk, e falta somente o último capítulo. Só dezesseis páginas para saber o que irá acontecer com Tyler Durden. Resolvo não terminar a leitura. Todo o brilhante niilismo transgressor do livro ao atingir seu ápice merece ser degustado depois, com maior atenção. Deixo o livro sobre o sofá, levanto e paro junto a janela. Estou no quinto andar, e lá embaixo, na rua, pessoas caminham ligeiras, um brigadiano olha atentamente pruma vitrine, decerto sonhando com algo que seu salário não permite comprar, o velho hippie continua tocando o violão amarelo manga e esperando que moedas caem no chapéu. Só não dá pra ouvir qual é a canção. Quando passei por ele, de manhã, tocava Don’t let me down. Ele é bom, diga-se.

Viro-me e vou até a mesa da secretária. Ela tem um rosto ondulado. Olhos miúdos detrás dos óculos de grau. E parece saborear minha ansiedade. Pergunto se o nobre editor vai demorar pra me receber. Ela continua teclando no computador, depois, afasta o olhar do monitor e me encara. Ele não irá atende-lo, ela diz, faz pausa, prossegue, houve um imprevisto, acabou de mandar mensagem, pede que o senhor vá para casa e aguarde novo contato. Daí ela retorna ao teclado. Eu não digo nada. Já entendi. Recolho o livro e saio pela porta. No corredor, dou sorte, o elevador está descendo. Entro. No elevador tem uma velha gorda segurando um cãozinho Pug no colo. O cachorrinho vestido numa ridícula roupa com motivos asiáticos traz o olhar de quem já ficou neurótico. Também tem um rapaz com uniforme de uma pizzaria segurando várias caixas de pizzas. Ele escuta algo no fone de ouvidos e parece fitar um ponto imaginário. Nenhum deles responde ao meu boa tarde.

Doralino - coluna

Enquanto o elevador desliza entre as paredes, observo o livro em minha mão. Chuck Palahniuk também viu suas primeiras obras autorais serem recusadas por diversas editoras. Aí o cara decidiu negar completamente o mainstream e se arriscar numa narrativa obscura sobre jovens que encontram alivio e redenção pras frustrações e raivas lutando em pequenos clubes nos porões dos bares da cidade. Assim, nascia Clube da Luta. O livro apresenta um narrador numa rotina de trabalho enfadonho e consumismo desnecessário. Que sofre duma mordaz insônia. Ele conhece Marla Singer e Tyler Durden. Com Marla adentra ao mundo dos grupos de auto-ajuda, e o contato com pessoas condenadas e moribundas lhe permite ter boas noites de sono.  Com Tyler vem o Clube da Luta. E a destruição moral daquilo tudo que ele havia construído em sua vida. Feito uma enxurrada de socos e ponta pés, a obra questiona sobre o que nos tornarmos ao vivermos em uma sociedade de vidro, mantendo-nos uns acima dos outros com um instinto de sobrevivência brutalmente desnecessário e perigosamente mortal. O livro é um profundo olhar para dentro de nós mesmos.

O elevador chega ao térreo. A velha gorda, toda esbaforida abre caminho entre nós. Sai resmungando alguma coisa para o cachorro, como se ele realmente a entendesse. Enquanto deixamos o prédio, percebo que o entregador de pizzas olha pro livro. Pergunto se conhece a história. Faz que sim com a cabeça. Sempre concordei com Tyler Durden, ele diz. Sempre acreditei que pra viver sem ficar maluco, é preciso seguir os ensinamentos de Tyler Durden, ele prossegue, é preciso fazer parte do Clube. Se algum dia pedir pizza, nunca peça quatro queijos, finaliza. Só então percebo que ele tem alguns hematomas pelo pescoço e noto que lhe falta um dente. Logo adiante ele para em frente a um bar, olha pra um lado, pro outro, depois desce a escadaria, indo ao porão. Eu faço o mesmo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s