“Eu não sei escrever. Admiro quem nasceu com esse dom!”
Quando escutei essa frase, logo perguntei: — Escrever? Mas você já tentou?
A pessoa me olhou como se a pergunta não fizesse muito sentido. Afinal, se não sabia escrever, por que tentaria? Não seria melhor deixar essa tarefa para quem nasceu com o talento, para quem parece encontrar as palavras com facilidade, construir frases bonitas e apropriadas?
Fiquei pensando. Quantas pessoas carregam a mesma certeza? Quantas acreditam que escrever é um presente reservado a alguns, uma espécie de habilidade misteriosa que acompanha determinadas pessoas desde o nascimento? Claro que talvez a gente tenha aprendido a admirar tanto o texto pronto que tenha esquecido tudo o que existe antes dele. Lemos uma crônica bem construída, um conto que nos emociona, um romance que nos prende do começo ao fim e imaginamos que o autor simplesmente se sentou diante do computador e deixou as palavras fluírem. Como se cada frase tivesse nascido no lugar certo, como se nenhuma ideia tivesse sido abandonada, como se o texto não tivesse passado por dúvidas, mudanças e recomeços.
Será que é assim? Gente! Bahhh… eu não sei quantas vezes hesitei. Quantas, comecei uma história e não soube como continuar. Quantos parágrafo, apaguei, reescrevi… Procurei uma palavra, experimentei outra, mudei e a ordem das frases. Tive em alguns momentos, a impressão de que tudo estava dando certo; em outros, olhava para a página e pensava que talvez fosse melhor desistir. A diferença é que, eu decidi continuar e concluir o texto.
E continuar não significa escrever sempre com facilidade. Significa aceitar que a escrita é um processo, que se aprende escrevendo, lendo, observando, experimentando e, principalmente, permitindo-se começar mesmo sem ter certeza de que vai dar certo. É claro que existem pessoas com maior facilidade para lidar com as palavras. Há quem tenha crescido em meio aos livros, quem goste de observar o cotidiano, quem tenha uma imaginação inquieta e encontre prazer em contar histórias. Tudo isso pode ajudar. Mas transformar essas características em uma espécie de dom exclusivo é esquecer que a escrita também se constrói com tempo, prática e aprendizagem.
Ninguém precisa nascer sabendo organizar um texto, escolher o gênero adequado, estabelecer a coesão entre os parágrafos ou encontrar a palavra que traduz exatamente aquilo que deseja dizer. Essas coisas podem ser aprendidas. Eu, mesma depois de muitos anos escrevendo, continuo aprendendo.
Antes de cobrar um texto perfeito, precisamos permitir que uma ideia encontre seu primeiro lugar no papel. Antes de exigir uma frase bem construída, precisamos dar espaço para que alguém descubra o que deseja dizer. E, antes de afirmar que não sabemos escrever, talvez devêssemos experimentar escrever alguma coisa.
Escrever não é um privilégio de quem nunca erra, nem uma habilidade reservada a quem nasceu sabendo. Escrever é também aprender a confiar nas palavras que ainda estamos descobrindo.