O jejum das palavras

Há dias em que escrever parece um excesso.

A gente abre o caderno, começa uma frase e logo percebe que há palavras demais tentando explicar aquilo que, talvez, só precisasse ser sentido.

Tenho pensado nisso depois de reler algumas páginas sobre Hemingway e sua desconfiança das grandes palavras. Depois da guerra, palavras como honra, glória, sacrifício e coragem haviam sido usadas tantas vezes para justificar a morte que perderam parte de sua inocência. Restavam, então, as coisas concretas: os lugares, os nomes, os rios, as datas, os corpos, a vida possível depois daquilo que não podia ser desfeito. 

Isso me fez pensar que talvez escrever não seja apenas encontrar as palavras certas.

Talvez seja também desconfiar das palavras que parecem certas demais.

Há palavras que chegam prontas. Carregam séculos de significados, opiniões, julgamentos e expectativas. Felicidade. Sucesso. Fracasso. Família. Amor. Superação. Resiliência.

Quantas vezes repetimos essas palavras sem perguntar o que elas significam para nós?

Talvez uma das tarefas mais difíceis de quem escreve seja essa: não aceitar o significado pronto das coisas.

Porque escrever é também desconfiar.

Desconfiar da frase bonita.

Da conclusão perfeita.

Da moral que chega antes da experiência.

Daquela palavra que parece explicar tudo e, justamente por isso, talvez não explique nada.

Tenho aprendido que uma cena pode dizer mais do que uma reflexão inteira.

Uma criança atravessando o quintal no escuro talvez diga mais sobre o medo do que três páginas falando sobre coragem.

Uma cadeira vazia pode falar de ausência sem jamais pronunciar a palavra ausência.

Uma mãe cansada colocando comida sobre a mesa pode dizer mais sobre amor do que qualquer definição de amor.

Uma janela aberta pode dizer mais sobre liberdade do que um discurso inteiro sobre liberdade.

Talvez escrever seja isso: retirar o excesso até que aquilo que realmente importa consiga aparecer.

Mas há uma armadilha.

Cortar palavras não significa escrever pouco.

Silenciar não significa não ter nada a dizer.

A contenção só funciona quando existe alguma coisa por baixo dela.

É aí que a escrita se torna difícil.

Porque não basta cortar.

É preciso saber o que merece permanecer.

O texto que me inspirou esta reflexão lembra justamente isso: a economia de Hemingway não era uma receita de frases curtas. Havia experiência, observação e conhecimento por trás daquilo que ele escolhia retirar. Quando os imitadores conservaram apenas o corte, transformaram a escrita em técnica vazia. 

E talvez isso valha também para nós.

Vivemos cercados de palavras.

Palavras nas telas.

Palavras nas propagandas.

Palavras nas redes.

Palavras que prometem felicidade em três passos, sucesso em cinco, transformação em sete.

Talvez escrever seja, hoje, uma forma de resistência ao excesso.

Não para escrever menos.

Mas para dizer melhor.

Para voltar às coisas.

Ao cheiro.

Ao gesto.

À pessoa.

À casa.

À janela.

Ao silêncio entre duas pessoas que não sabem mais o que dizer.

Ao detalhe que ninguém percebeu.

Porque talvez a literatura comece justamente quando paramos de explicar a vida e começamos a olhá-la.

E talvez a pergunta mais importante para quem escreve não seja:

“O que ainda posso dizer?”

Mas:

“O que precisa realmente ser dito?”

O resto pode esperar.

Algumas palavras, inclusive, talvez mereçam um pouco de jejum.

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