A crônica de hoje nasceu de uma pergunta

Ela chegou pelas mãos de um leitor, dessas perguntas que parecem simples quando chegam, mas que, depois de lidas, permanecem rondando a gente por algum tempo, como aquelas frases que continuam ecoando mesmo depois que a conversa termina:

— Ana, por que escrever hoje em dia, se ninguém lê?

Confesso que a pergunta me fez parar, não porque eu não soubesse o que responder, mas justamente porque escrever é uma dessas coisas que faço há tanto tempo que, às vezes, esqueço de perguntar a mim mesma por que continuo escrevendo em um mundo que parece cada vez mais ocupado em passar rapidamente por tudo.

Eu poderia responder que ainda existem livros, leitores, bibliotecas, cadernos esquecidos nas gavetas e pessoas que, apesar da velocidade dos dias, ainda encontram tempo para abrir uma página e permanecer nela por alguns minutos. Poderia falar da literatura, da necessidade humana de contar histórias, da beleza das palavras ou desse desejo quase inexplicável de transformar pensamentos em frases, mas talvez tudo isso fosse uma resposta bonita demais para uma pergunta que me pedia, antes de qualquer coisa, honestidade.

Então, pensei. Por que escrevo?

Escrevo porque, antes de querer ser lida, preciso dizer, e talvez essa seja a parte mais verdadeira da minha relação com a escrita: algumas coisas dentro de mim simplesmente não encontram outro lugar para existir que não seja a palavra.

Há lembranças que não cabem mais na memória, sentimentos que não sabem morar em silêncio, perguntas que continuam batendo à porta mesmo quando fingimos não ouvi-las e pequenas descobertas do cotidiano que, se não forem transformadas em palavras, acabam desaparecendo na pressa dos dias.

Quando escrevo, não resolvo o mundo, não encontro respostas para todas as perguntas e muito menos tenho a pretensão de ensinar alguma coisa a alguém; mas consigo conversar com ele, observá-lo com mais cuidado e, principalmente, compreender um pouco melhor aquilo que acontece dentro de mim enquanto tudo acontece lá fora.

É verdade que vivemos em um tempo de pressa, em que as telas disputam nossos olhos, as notificações interrompem pensamentos, os vídeos passam antes mesmo de conseguirmos decidir se queríamos assisti-los e os algoritmos, silenciosamente, ajudam a escolher aquilo que chega até nós.

Passamos rapidamente por textos, imagens, notícias, poemas e histórias, muitas vezes consumindo palavras como quem atravessa uma estação movimentada, sem tempo de perceber quem está sentado ao nosso lado; às vezes, parece que até para prestar atenção precisamos fazer um esforço consciente.

Então alguém diz:

— Ninguém mais lê.

Será?

Talvez muita gente leia menos, talvez leia de outra maneira, talvez leia em pequenos intervalos, entre uma tarefa e outra, entre uma notificação e outra, talvez leia na tela do celular enquanto espera o ônibus ou antes de dormir, mas ainda lê.

E basta uma única pessoa parar diante de uma frase, reconhecer nela um sentimento que não sabia nomear ou encontrar em algumas linhas uma pergunta que também carregava consigo para que a escrita já tenha encontrado seu destino.

Porque um texto não precisa alcançar uma multidão para cumprir seu papel; às vezes, ele precisa apenas encontrar alguém, uma pessoa qualquer, em algum lugar do mundo, justamente naquele dia em que aquela palavra fazia falta.

Talvez escrever seja um pouco como lançar uma garrafa ao mar, sem saber exatamente quem vai encontrá-la, quando isso acontecerá ou se alguém, algum dia, terá curiosidade suficiente para retirar a mensagem de dentro.

Mesmo assim, eu lanço.

Porque meu papel não é controlar o destino das palavras, decidir quem vai lê-las, quantas pessoas serão alcançadas por elas ou se permanecerão durante muito tempo na memória de alguém; meu papel é simplesmente dar a elas a possibilidade de existir.

E talvez seja justamente porque tudo passa tão depressa que escrever tenha se tornado ainda mais necessário.

Escrever é desacelerar o mundo por alguns instantes, é olhar novamente para aquilo que todos parecem estar atravessando com pressa e perguntar o que existe ali, é guardar aquilo que poderia desaparecer e transformar uma experiência passageira em alguma coisa que possa permanecer.

Escrever é deixar uma pequena marca onde antes havia apenas passagem.

É dizer, mesmo sem saber quem ouvirá: eu estive aqui.

Eu pensei nisso.
Eu senti.
Eu perguntei.
Eu sonhei.

E, se ninguém ler hoje, talvez alguém leia amanhã; se ninguém ler amanhã, talvez uma palavra permaneça esquecida em algum canto, esperando o momento certo para encontrar outro olhar, outra história, outra vida.

E, se nem a palavra permanecer, ainda assim terá valido a pena, porque nem tudo aquilo que fazemos precisa ser medido pelo alcance que teve, pelo número de pessoas que viu ou pela quantidade de aplausos que recebeu.

Há coisas que fazemos simplesmente porque fazem sentido para nós.

Eu não escrevo apenas para ser lida.

Escrevo porque há dentro de mim coisas que ainda pedem para ser ditas, porque há histórias que procuram uma forma de existir, porque há perguntas que não aceitam o silêncio como resposta e porque, enquanto eu puder transformar aquilo que sinto e penso em palavras, continuarei acreditando que escrever é uma maneira de permanecer um pouco mais humana em um mundo que, muitas vezes, parece ter tanta pressa de passar por tudo. E algumas palavras, quando pedem para nascer, simplesmente não aceitam ficar em silêncio.

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