Quando a herança dos imigrantes vira identidade: o legado alemão preservado pela Oktoberfest de Igrejinha

Há histórias que permanecem vivas porque continuam sendo contadas. Outras ganham espaço nos gestos do cotidiano, nos sabores compartilhados em família, na música que atravessa gerações e nas tradições que resistem ao tempo. Em Igrejinha, a herança deixada pelos imigrantes alemães encontra, todos os anos, um espaço para ser revivida na Oktoberfest, festa que nasceu para celebrar uma cultura que continua fazendo parte da identidade da comunidade.

A gastronomia típica, as bandinhas, as danças folclóricas, os trajes típicos, o dialeto alemão e a arquitetura da Vila Germânica não aparecem na programação apenas como referências ao passado. São expressões de uma história construída por famílias que trouxeram consigo costumes, conhecimentos e formas de viver que atravessaram gerações e continuam presentes na região.

Para a diretora Artístico-Cultural da Associação de Amigos da Oktoberfest de Igrejinha (Amifest), Liége Brusius, entender a festa passa, antes de tudo, por compreender a origem da própria cidade. “A Oktoberfest existe porque ela é uma festa que procura manter viva essa tradição que ainda hoje marca os nossos interesses, as nossas características e a nossa forma de viver”, destaca.

Segundo ela, a festa ajuda a transformar em experiência aquilo que poderia permanecer apenas na memória. Em vez de ocupar um lugar restrito aos livros de história ou às lembranças das famílias, os costumes deixados pelos imigrantes continuam sendo vividos, compartilhados e transmitidos às novas gerações. “A Oktoberfest tem esse papel de tornar atrativo algo que, para muitos, é passado”, diz.

Tradições que atravessam gerações

A história da imigração alemã aparece na Oktoberfest em detalhes que, muitas vezes, passam despercebidos. Os Jogos Germânicos, por exemplo, têm origem em atividades do cotidiano dos primeiros colonizadores e transformam antigos ofícios em competições que ajudam a contar como viviam as famílias responsáveis pela formação da região. Modalidades como Serra de Duas Pontas, jogo dos pregos, machado e cabo de guerra nasceram do trabalho nas propriedades rurais e hoje preservam essa memória de forma lúdica.

A história também está presente no Stammtisch, encontro em que participantes se reúnem para conversar em dialeto alemão. Na Vila Germânica, ela aparece na arquitetura inspirada nas construções típicas e na localização às margens do Rio Paranhana, uma referência aos locais escolhidos pelos imigrantes para iniciar a vida no Rio Grande do Sul.

Na gastronomia, receitas preparadas há gerações seguem ocupando espaço nas mesas da festa. Na música, as bandinhas preservam uma tradição trazida pelos colonizadores e que ainda hoje faz parte das celebrações da comunidade. Para Liége, é a união desses elementos que dá sentido à Oktoberfest. “Tudo isso dá a identidade da nossa festa. A nossa festa cultiva as tradições germânicas e precisa estar atenta para que tudo aquilo que aprendemos com os nossos antepassados possa, de alguma forma, estar representado”, reflete.

Olhar para o futuro sem esquecer as origens

A continuidade dessa história também depende de quem irá contá-la no futuro. Por isso, a Oktoberfest investe em iniciativas voltadas às novas gerações, como os Jogos Germânicos Escolares, os encontros de danças folclóricas infantis e a escolha anual do Bubchen e Mädchen, representantes infantis da festa que passam a vivenciar e divulgar a cultura germânica desde cedo.

Para Liége despertar esse interesse é uma forma de fazer com que a cultura germânica continue presente na vida das novas gerações, mantendo vivas tradições que fazem parte da história de Igrejinha. “Nossa Oktober é uma festa plural, que traz experiências atuais, mas sem nunca abrir mão de trazer também aquilo que nos leva à nossa cultura local. Somos uma cidade de colonização germânica e os aspectos culturais são os protagonistas da Oktoberfest de Igrejinha”, conclui.

Celebrado em 25 de julho, o Dia do Imigrante Alemão convida à reflexão sobre a contribuição dos povos que ajudaram a formar o Rio Grande do Sul. Em Igrejinha, essa herança segue presente muito além da memória. A cada edição da Oktoberfest, ela ganha voz na música, nos sabores, na arquitetura, nas brincadeiras e nas tradições compartilhadas entre diferentes gerações, reafirmando a cultura germânica como parte da identidade da comunidade.

*Fotos: Cleiton Miguel

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