Antes que a palavra chegue

Talvez por isso eu tenha começado a prestar atenção também nas palavras que desaparecem. 

Não nas que apagamos por descuido, mas naquelas que a vida vai retirando de nós sem pedir licença.

Quando somos crianças, há palavras que parecem enormes. Depois crescemos e algumas perdem o tamanho. Outras mudam de significado. Algumas simplesmente deixam de fazer parte do nosso vocabulário.

Lembro-me de certas palavras da infância que hoje quase não uso.

Não porque tenham deixado de existir, mas porque o mundo que as sustentava foi embora.

Havia palavras para coisas muito simples: para o jeito de chamar alguém de dentro de casa, para pedir licença, para avisar que a comida estava pronta, para perguntar se alguém já tinha chegado. Havia palavras que não precisavam ser ditas porque estavam incorporadas aos gestos.

Talvez esse seja um dos primeiros aprendizados da escrita: nem tudo o que é importante precisa ser pronunciado.

Minha mãe não precisava dizer que estava cansada.

Bastava olhar suas mãos.

Meu pai não precisava anunciar preocupação.

Havia um silêncio diferente quando alguma coisa não estava bem.

Os irmãos não precisavam declarar que se gostavam.

Às vezes, dividir o último pedaço de alguma coisa era uma forma mais convincente de dizer isso.

Hoje temos palavras para quase tudo e, curiosamente, talvez estejamos desaprendendo a perceber os sinais que existiam antes delas.

Precisamos nomear o afeto.

Explicar a tristeza.

Definir a felicidade.

Publicar a gratidão.

Declarar a saudade.

Talvez até o silêncio tenha ganhado legenda.

E eu me pergunto se não estamos falando demais justamente porque já não sabemos olhar.

A crônica, para mim, nasce desse lugar.

Do pequeno acontecimento que passa despercebido enquanto acontece e só depois, quando a vida já seguiu adiante, volta para bater à porta.

Uma xícara esquecida.

Uma janela aberta.

Uma cadeira vazia.

Uma palavra que alguém disse há vinte anos.

Uma voz que não ouvimos mais.

A crônica não precisa de acontecimentos extraordinários.

Às vezes, basta uma coisa comum observada por tempo suficiente.

Talvez seja por isso que gosto tanto de escrever sobre aquilo que parece pequeno.

O pequeno é onde a vida costuma se esconder.

E talvez o cronista seja apenas alguém que ainda não aprendeu a passar depressa.

Ele para.

Olha.

Escuta.

Desconfia.

E pergunta:

por que isso ficou em mim?

Nem sempre encontra resposta.

Ainda bem.

Porque, quando encontramos uma resposta definitiva, a história termina.

E algumas histórias precisam continuar vivendo dentro da gente.

Talvez escrever seja exatamente isso: não fechar completamente as portas da memória.

Deixar uma fresta.

Uma janela.

Um lugar para que uma lembrança antiga entre novamente e se sente ao nosso lado, sem obrigação de explicar por que voltou.

Hoje penso que o verdadeiro jejum das palavras talvez não seja ficar em silêncio.

É aprender a não desperdiçar aquilo que merece ser dito.

Guardar algumas palavras até que encontrem a hora certa.

Deixar outras morrerem antes de chegarem ao papel.

E esperar.

Porque há palavras que precisam de tempo para amadurecer.

Algumas chegam cedo demais.

Outras chegam quando já pensamos que nunca virão.

E existem aquelas que passam anos dentro de nós até que, numa manhã qualquer, enquanto escrevemos uma crônica sobre o silêncio, finalmente entendemos:

elas não estavam caladas.

Estavam esperando que aprendêssemos a escutá-las.

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