Uma das mais antigas tradições teuto-riograndenses, trazida pelos imigrantes alemães, é o Terno de Atiradores de Ano Novo. Esse ritual festivo, de grande simbolismo cultural, acontece na noite da virada do ano: o grupo visita as casas, levando alegria aos moradores e afastando as energias ruins por meio do barulho das salvas de tiros de reúnas. Com o passar do tempo, cada vez menos grupos mantêm viva essa prática. Na comunidade de Ilha Nova, no interior de Rolante, o Terno Amigos Unidos segue ativo e representa uma importante referência folclórica para a região. Reconhecendo sua relevância e buscando compreender melhor essa tradição, a Associação Comunitária de Ilha Nova (ASCOMIN) desenvolveu a produção cultural “Terno de Ano Novo: uma celebração cultural em risco”, que resultou em um valioso acervo histórico sobre o tema.
Esse já era um desejo antigo do grupo, como conta a pesquisadora e integrante da ASCOMIN, Franciele Schmidt. “Há bastante tempo tentávamos elaborar um projeto que inventariasse a celebração do Terno de Ano Novo, pois é uma tradição importante não apenas para nós, mas também para outras cidades da região e do Estado. O inventário tem grande relevância porque, até então, existiam poucas fontes escritas sobre o Terno. A partir desse trabalho, conseguimos coletar materiais, realizar entrevistas e obter um embasamento sobre o início da celebração e sua trajetória no Rio Grande do Sul. Agora, esse material também está disponível para novas pesquisas”.

Em 2023, o grupo conseguiu viabilizar o projeto por meio de recursos da Lei Complementar nº 195/2022, da Lei Paulo Gustavo, via Ministério da Cultura e Secretaria da Cultura do Estado. Em 2024, iniciaram-se as reuniões com a assessoria do antropólogo Daniel Vaz Lima, em encontros semanais. Durante um ano, o grupo realizou coletas de informações, pesquisas, análises fotográficas e documentais, buscando compreender a origem dos Ternos e como eles se mantêm. Em 2025, o projeto foi concluído, reunindo significativos materiais de pesquisa e divulgação.
O que é o Terno de Ano Novo?
O Terno de Ano Novo é um grupo que se reúne para comemorar a virada do ano. Com cerca de 25 a 30 integrantes, nas noites de réveillon eles visitam as casas que desejam recebê-los, levando música, dança e alegria às famílias. O trajeto inicia a partir da meia-noite e segue pelas residências da comunidade em um itinerário previamente definido. A celebração pode se estender até a tarde ou até mesmo à noite do primeiro dia do ano, dependendo do número de casas visitadas.
Na comunidade de Ilha Nova, o Terno sempre parte da sede da ASCOMIN. Em cada residência, há um roteiro que orienta a celebração, que começa com o pedido de licença para entrar no terreno. Nesse momento, o declamador de versos dá início ao ritual com uma poesia rimada, recitada em português ou em alemão, conforme a escolha da família. “O declamador se posiciona em frente à porta de entrada e recita o verso, geralmente repleto de votos de Feliz Ano Novo para a família. Pode também desejar boas colheitas, saúde e trabalho. Esse é um momento muito importante da celebração, pois, representando todo o grupo, o declamador faz os primeiros votos para a família que está recebendo o Terno”, explica a pesquisadora Franciele Schmidt.


Enquanto o declamador cumpre sua parte, os demais integrantes, responsáveis pelas reúnas, as preparam com buchas de jornal e pólvora negra. Com a autorização do declamador, cada um dispara as reúnas, que são objetos artesanais que um único objetivo: fazer barulho. “Esse barulho tem um significado. Durante as pesquisas para o inventário, identificamos que a tradição de fazer ruídos na virada do ano remonta às antigas tribos germânicas. Já no século V, acreditava-se que os estrondos afastavam coisas ruins e maus espíritos da casa da família”, acrescenta Franciele.
Após essa etapa, o grupo entra na residência e todos os integrantes cumprimentam os moradores, desejando um bom ano novo em português ou em alemão. As famílias costumam preparar uma mesa com alimentos de sua preferência para recepcionar o Terno. Ao redor dela, os presentes dançam, se divertem e celebram junto com a banda que acompanha a tradição. Concluída a visita, o grupo segue para outra casa, repetindo o ritual.
Salvaguarda e registro para futuras pesquisas
O inventário reúne diversas informações e está disponível para pesquisadores e demais interessados no tema, constituindo um importante registro histórico dessa tradição. Além dele, foi organizada uma exposição itinerante sobre o Terno de Ano Novo, composta por objetos significativos para o grupo de Ilha Nova, narrativas fotográficas, imagens de outros grupos do Estado e registros de diferentes momentos da celebração. Também foram produzidos banners informativos, que apresentam parte da história do Terno Amigos Unidos e de outros grupos do Rio Grande do Sul.
Outro resultado relevante do projeto foi a criação de um material pedagógico voltado a estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental. O conteúdo aborda as origens do Terno e o modo como a celebração acontece, em uma linguagem lúdica e adequada a esse público.