A triste “cultura do cancelamento”!

*Henrique Keske

Desde que as denominadas tecnologias da comunicação passaram a se tornar de domínio público e massivo, ou seja, disponibilizados a todos em nossas sociedades, cada sistema criou uma maneira própria de operar com valores, posições e conceitos, de uma forma geral. Foi assim com o rádio, o cinema e a televisão. Ademais, todas essas formas de comunicação apresentaram excelentes benefícios, mas, igualmente, se pode estabelecer críticas pertinentes quanto ao seu uso e, principalmente, ao abuso de utilização de tais meios. O mesmo se pode considerar no que diz respeito à Internet, como a mais expressiva possibilidade de comunicação global de que já estamos, todos, a desfrutar. Entretanto, se deve, também, analisar certos aspectos do uso dessa excepcional ferramenta de comunicação, principalmente no que diz respeito ao seu desdobramento nas mídias sociais, ou mais precisamente, na formação dos chamados grupos, que se proliferam sem limites, em todas as redes.

O fato a ser criticado, então, se refere à denominada “cultura do cancelamento”, ou seja, de apenas eliminarmos, inteiramente, todos aqueles que, de alguma maneira, não concordam com nossas ideias, valores e conceitos, sem permitir que usem de sua voz, para se expressarem, reduzindo os (as) excluídos (as), então, ao mero silêncio. Em consequência, passamos a nos relacionar somente com a nossa “bolha’ de opiniões fechadas, sem nos permitirmos e sem possibilitar os níveis mínimos de diálogo e troca de opiniões e de saberes capazes de nos mostrar outras facetas dos fatos tratados que, no mais das vezes, não percebemos, porque estamos com nosso olhar focado somente em uma direção. Dessa forma, ao eliminarmos o possível diálogo, formado pelo falar e ouvir, estamos eliminando a variedade de possibilidades de outros enfoques possíveis para as questões levantadas.

Nesse caso, duas circunstâncias se estabelecem, porque, em primeiro lugar, ficamos fechados nessa bolha de concordância que nós mesmos criamos, deixando de analisar as opiniões contrárias e, pior, em um  segundo momento, não mais analisamos as informações veiculadas em nosso próprio grupo fechado, passando a difundir quaisquer dados, ideias, conceitos e/ou valores, sem, ao menos, analisar se suas fontes são verdadeiras e, daí, surgem as famigeradas notícias falsas, ou narrativas infundadas, sem compromisso mínimo com a verdade, que causam enormes prejuízos a todos. Passa-se a vivenciar uma espécie de “mundo paralelo”, em que os fatos, eles mesmos, cedem espaço para essas narrativas, ou discursos, caracterizados por serem apenas falsidades, sem sustentação em fatos reais. No passo seguinte, se passa a crer em tais superstições, moldando nosso pensar e nosso agir em tais suposições não condizentes com a realidade. E aí o mal já está feito, incluindo-se, nesse sentido, calúnias, injúrias e difamações. Aqui vale o ditado popular, então: “- quem com ferro, fere, com ferro será ferido”! Assim, quando passamos a sofrer os cancelamentos e os processos de silenciamento, que ninguém se sinta injustiçado.

Isto já causou transtornos familiares, com a criação de inimizades difíceis de superar, com estranhamentos e constrangimentos, mesmo entre parentes que, simplesmente, não se falam mais. Agora, com a retomada das aulas presenciais, em todos os níveis, as escolas, colégios e Universidades terão que enfrentar, novamente, os desafios do convívio direto de pessoas entre si e não estaremos mais protegidos pelo simples toque das teclas de cancelamento do outro e de suas opiniões contrárias. O mesmo nas relações de trabalho, mesmo se estivermos envolvidos com o trabalho à distância: como formar uma equipe que enxergue somente em uma direção? E os empresários, poderão dispensar potenciais clientes, porque os mesmos discordam de algumas de suas ideias e opiniões? Isto seria absurdo. A outra pessoa não pode ser reduzida somente ao toque de uma tecla de cancelamento: todos perdem, sem exceção!

Ninguém enxerga a totalidade de um fato, em todos as suas facetas e perspectivas e é por isso que surgem percepções, a princípio contrárias, mas que, de muitas formas, se complementam, para que se tenha uma visão mais completa de qualquer coisa que quisermos analisar ou que mereça nossa atenção, seja uma ideia, por exemplo, ou um produto inovador, de qualquer natureza, algo que quisermos colocar no mercado: as possibilidades são praticamente infinitas se, corajosamente, pudermos nos reabrir para o diálogo e, mesmo para o aparente contraditório. Isto nos retira, certamente, de nossa zona de conforto, mas tem o potencial de nos apresentar algo do que não fomos capazes de ver, ampliando, dessa forma, nossa própria capacidade de atuação, em quaisquer níveis da sociedade onde estivermos inseridos. Basta, simplesmente, perguntar ao outro: “o que te parece isso, o que pensas a respeito”? Depois, então, não precisamos aderir, sem questionamentos, ao que ouvirmos, mas analisar e dali extrairmos o melhor. Assim se forma o ganho para todos.

Henrique Keske é advogado, doutor e mestre em Filosofia. Lecionou por mais de 15 anos na Feevale em Novo Hamburgo. Hoje dedica-se a pesquisa nos campos do Direito, Filosofia e Comunicação, além disso, tem um Canal no YouTube onde semanalmente recebe convidados no quadro chamado “Keske Talks”. Também dedica-se a mentoria educacional dando suporte para acadêmicos em níveis de graduação, mestrado e doutorado.

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