Alô, alô!

Pessoa das palavras e falante por natureza, tenho no telefone um aliado e um elo de “ligação”, literalmente, com alguns bons e raros amigos que ainda conversam. Embora a maioria utilize o celular para uma comunicação exclusiva por aplicativos e redes sociais, o telefone perdeu a sua finalidade em si, que é a do diálogo com alguém do outro lado da linha.

Estranho, para não dizer desrespeitoso, o fato de ligar e não obter retorno reflete o ato de ignorar um interlocutor que, às vezes, precisa enviar a mensagem falando, explicando, de maneira clara e objetiva, sem símbolos e abreviações desconexas.

E há que se insistir na “ligação”, ainda que muitos sequer ouçam o chamado, mas prontamente respondem via Whats, o que é, no mínimo, estranho. Disponíveis on-line, em off da vida real.

Por conta disso, melhor preservar os cinco ou seis amigos com quem você possa efetivamente conversar do que manter a lista interminável de milhares de contatos anônimos e indiferentes. Essa meia dúzia, nos moldes de antigamente, ainda saberá usar o telefone para ouvir a voz, a risada, o choro, a respiração, enfim, para dialogar, bater um papo ou simplesmente saber do outro.

A tarefa, embora pareça óbvia com tantos meios de comunicação disponíveis, não é fácil. Conversar exige presença, atenção, silêncio e aquele alento quando se ouve, do outro lado, aquele “alô” de verdade. Claro que a agilidade de um whats é inquestionável para quem responde a uma urgência. Mas o que é urgência em tempos tão estranhos?

É saber que aqueles cinco ou seis estarão firmes lá, para o que der e vier, falantes, ávidos pelo contato presencial, comentando futilidades ou as piores notícias pandêmicas. Exceções à parte, não há amizade na indiferença e no egoísmo arraigado em algumas almas desgarradas, imersas em bolhas sem conexão real.

E que alívio, confesso, saber dos que me são caros, sem ter que esperar pelo retorno dos que não sabem nem falar ao telefone, que dirá presencialmente. Para quem escreve, ainda há a esperança de um e-mail, coisa antiga, é certo, mas que pode ser a carta de alforria para a liberdade de expressão.

Nem sempre estarei, também, a postos para atender imediatamente a todos os meus cinco ou seis contatos confirmados. E vice-versa, mas quando toca o telefone é sinal de que alguém tocará nosso coração com algo importante ou apenas para dizer que aqui faz frio, que morreu um conhecido, que nasceu o filho de um amigo, que estamos com saudade, felizes, aborrecidos ou, simplesmente, para dar boas risadas.

Para esses, meu retorno está garantido, assim como a minha amizade. Pode levar alguns minutos, mas estarei lá para aquele alô, que também é uma palavrinha em desuso. Importante ou não, se for dos seus contatos, atenda, antes que você seja esquecido ou lembrado apenas pela foto irreconhecível do seu perfil.

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