Obituários

Os obituários dos jornais já não dão conta de tantas mortes. O espaço, um breve resumo da causa do óbito e da vida da pessoa que partiu dessa para uma melhor (espera-se), pode ser de alguém totalmente desconhecido dos nossos relacionamentos, na maioria das vezes, ou algum artista ilustre que merecerá, certamente, mais de meia página enaltecendo suas qualidades.

O consolo para quem lê aquelas bem traçadas linhas, como eu, é que ninguém falará dos seus defeitos, depois de morto, obviamente. Ainda que o falecido(a) não possa mais ler o currículo pós-morte que lhe dedicaram, em palavras quase poéticas, dependendo da importância do sujeito, me ponho a imaginar (mesmo sem ter a menor ideia de quem era aquela pessoa), quem foi aquele ser cheio de virtudes e vida ilibada, pai e profissional exemplar, em adjetivações que talvez o próprio morto nunca imaginou que lhe seriam atribuídas.

Com todo o respeito aos familiares, até porque nenhum de nós quer ser citado nessa editoria dos jornais tão cedo, se é que mereceremos alguma nota de rodapé sobre a nossa vida, o obituário não deixa de ser um comunicado oficial para que todos saibam que aquela pessoa partiu. Claro que nunca haverá espaço para os anônimos e insignificantes perante à sociedade e nem para todas as celebridades serem reverenciadas ali.

Pena, porque há histórias belíssimas que dariam um belo romance. Outras nem tanto, mas que chamam a atenção por detalhes que nunca imaginaríamos fazer parte da vida daquela pessoa, do vizinho da esquina ou daquela atriz famosa, cuja foto no obituário nos lembra do tempo em que tinham menos de 40 anos, embora tenham falecido aos 99, 100 ou 105 anos de idade. Depois disso, acredito que a seção teria que ter outro nome. Talvez vida além da vida ou algo assim.

É uma maneira diferente de homenagear os que se foram, assim como antigamente, na “Rua Grande”, em São Leopoldo, me intrigavam os cartazes da funerária com a foto do falecido e o convite para enterro colados nas árvores e postes da rua para toda a comunidade saber quem morreu. E quase todos eram conhecidos do meu avô, que viveu até os 94 anos e enterrou quase todos eles.

Naqueles tempos, a morte era normal. Acabou e pronto. E ninguém vivia tanto e nem morria tanto quanto, também, como nos dias de hoje, diante do inimaginável horror da pandemia. Ler o obituário me remete à insustentável leveza do ser, como diria Milan Kundera, em sua infinita impermanência e fragilidade, mesmo em tempos tão sombrios.

Nas entrelinhas de cada vida ali resumida, o que sempre será pouco para dizer tudo sobre o falecido, ainda haverá a possibilidade de imaginarmos o melhor, já que o pior será omitido, na maioria das vezes. São palavras que  ornamentam e confortam quem ainda ficará por aqui, recebendo por mais alguns anos,  diariamente, na porta de casa, a edição atualizada com a foto e o breve currículo dos poucos que serão citados nas nobres páginas do obituário, mas que serão esquecidos como todos, assim como as demais notícias que envelhecem com o jornal no final do dia.

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