Roupa suja

Aprendi desde muito cedo a lavar as próprias calcinhas. E também a arrumar a cama antes de sair para trabalhar. E também a cumprir horários e a chegar sempre antes da hora marcada por pura ansiedade e senso de responsabilidade, para nunca atrasar, coisa que também aprendi desde muito cedo.

Tudo isso parece banalidade ou bobagem, mas me foi útil (e ainda é) para a vida inteira. Já fui mais tolerante com os atrasos dos outros, com as camas desfeitas, com a roupa acumulada para lavar. Hoje, ainda lavo as minhas próprias calcinhas e respeito os horários agendados. Nunca me atraso, a não ser por algum imprevisto, muito imprevisto.

Apesar da maturidade e da aposentadoria terem me dado flexibilidade em muitas coisas, há valores que ficam arraigados desde a infância e nos acompanham pela juventude e fase adulta, até morrer. E talvez isso nos salve do pior, como ver uma geração inteira intolerante, como a que testemunho hoje, diariamente, contrariada com tudo e com todos que não satisfaçam suas vontades.

Mais do que isso, jovens e até alguns bem “crescidinhos”, em pleno retrocesso histórico, fomentando o racismo, a intolerância, o machismo, o feminismo, a homofobia, a ganância, a raiva, o ódio, o deboche, o sarcasmo, a ironia, enfim, uma série de atitudes avessas a qualquer coisa que não seja o que eles imaginam que sabem e acreditam. Imutáveis em seus posicionamentos, intransigentes em suas opiniões, arrogantes e incapazes de lavar as próprias calcinhas (ou cuecas) porque não aprenderam a caminhar com as próprias pernas e se sentem protegidos na bolha das redes sociais e sob as asas paternas.

Neste mundo, crescer é complicado. Melhor garantir todos os direitos, poucos deveres e sempre estar com a razão. Nada de exigências, advertências ou divergências, por favor! O atraso vai além do relógio, encoberta o retrocesso e o medo de ter que arrumar a cama quando amanhecer novamente.

Nem a pandemia justifica todo o arsenal disparado todos os dias contra tudo e contra todos por essa geração que não quer saber, nem entender, nem compreender. O teclado é a arma que utilizam para fuzilar. Não ouvem, não leem, não interpretam. Replicam e compartilham intolerância.

Aos pais, que talvez também nunca tenham aprendido a lavar as próprias roupas, resta manter as asas abertas para abrigar os “pintos” das intempéries e da jornada sem fim que é aprender a caminhar, para quem sabe um dia, com sabedoria, poderem sair para a rua, não sem  antes arrumarem a própria cama.

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