Vida normal

Antes mesmo de ir ao médico confirmar a possível ou improvável contaminação, Marianna já saiu gritando pela casa:

“Meu Deus”, o que será de mim? E dos meu projetos de vida, tão jovem, cheia de sonhos e propósitos? Não pode ser verdade! Morrer assim, em uma pandemia! Nãooo!

Intensa e exageradamente, como sempre reagiu diante dos acontecimentos, Marianna sequer sabia se tinha contraído o vírus da colega de trabalho, contaminada sabe-se lá por quem, mas já vislumbrava um futuro negro ou a morte certa.

Por conta disso, cancelou todas as atividades que vinha desenvolvendo na quarentena e que tinham lhe rendido muitos aprendizados, cursos e contatos importantes para logo mais, assim que pudesse voltar à vida normal com segurança.

coronavírus isolamento

A hipótese de ter sido contaminada pela colega disparou o alerta e o pavor em Marianna que, desesperadamente, imaginou o pior, comunicando à família que, talvez, aquele fosse o último momento para estarem juntos, antes do trágico final, da morte certa, que viria, mais cedo ou mais tarde.

Nas redes sociais, despediu-se dos amigos em forma de postagens melancólicas, quase suicidas, o que deixou todos apreensivos, esperando por um fim iminente, embora ninguém soubesse exatamente o que estava acontecendo com Marianna.

Em poucos dias, ela desapareceu das redes sociais, desligou o celular e silenciou. Não atendeu mais ninguém. Decidiu morrer solitariamente na casa onde morava há quatro anos, acompanhada apenas de seu cachorro, certa de que essa coisa invisível a devastaria sorrateiramente, sem possibilidade de cura.

Preocupados com a sua ausência, amigos e parentes decidiram chamar a polícia para averiguar o que estaria acontecendo com Marianna, provavelmente deprimida com a situação atual de confinamento. Ao chegarem ao local, arrombaram a porta e a encontraram no sofá da sala, com uma taça de vinho na mão e cachorro dormindo ao lado.

Sem forças, por não se alimentar direito há mais de uma semana, Marianna olhou para as pessoas ao seu redor e reafirmou sua sentença de morte: “É o fim. Não há nada mais a fazer”.

mulher bebe vinho coronavírus

Os policiais não hesitaram e nem ela tinha forças para reagir, em levá-la ao hospital mais próximo, onde diagnosticaram desnutrição profunda e um quadro depressivo em estado avançado. Quanto ao tal vírus, que ela afirmava ser a causa de sua desgraça, nunca existiu. Os testes nada detectaram.

Vítima da própria ansiedade e imaginação, viu-se à beira de um abismo criado apenas por pensamentos mágicos. Ao deixar o hospital, depois de alguns dias em recuperação, se deu conta do tempo e das oportunidades perdidas em razão de um momento de pânico, sem qualquer fundamento.

Já em casa, em um final de semana ensolarado, decidiu que era hora de perder o medo e vencer essas barreiras imaginárias, esses pensamentos nebulosos que povoavam seu cérebro, e seguir uma vida normal. Fechou a porta atrás de si e seguiu pela calçada em direção ao parque que ficava logo na esquina, praticamente vazio pelo isolamento social imposto pela pandemia.

Alguns minutos apenas. Este seria o tempo necessário para respirar sem máscara e retornar em segurança para o aconchego do sofá, na companhia do amigo de estimação, última imagem, aliás, retida em sua mente, antes de ser atropelada por um carro desgovernado que invadiu a calçada. O motorista fugiu do local e dela ninguém mais ouviu falar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s