E as crianças? Mudanças na rotina, relacionamento familiar e saúde mental dos pequenos em tempos de pandemia

Em meio a Pandemia do Covid-19, estamos já familiarizados com o #fiqueemcasa. “Fique em casa sempre que possível”, “só saia se for realmente necessário”, dentre outras expressões que nos convocam a, literalmente, nos restringir a ficar em casa. Nós adultos, temos escolhas quanto as possibilidades de pequenas fugas, como ir para o trabalho (para quem está trabalhando presencialmente), ir ao supermercado, à farmácia, à academia, na barbearia, na manicure…afinal, são saídas “permitidas”, desde que tomadas as devidas precauções. Escapadinhas que possibilitam dar uma respirada, uma aliviada na mente, uma desestressada. Saídas que podem ser uma forma de socialização, de enxergar outras pessoas, rever conhecidos, conversar, trocar ideias e percepções (sem esquecer do distanciamento físico recomendado).

Mas, e as crianças?

Os pequenos estão confinados, resguardados, protegidos… em muitas casas! Desde meados de março, vão continuar até julho, agosto…temos incertezas e instabilidades ainda pela frente.

Nas casas que têm famílias que se importam com a saúde física e emocional de suas crianças, a proteção, o resguardo e o cuidado, de fato, está acontecendo. Crianças que contam com a ajuda dos pais ou cuidadores que, mesmo diante das suas tantas exigências do mundo adulto, como as novas formas de trabalho ou diante do desemprego, talvez abatidos pela crise financeira ou por dificuldades emocionais geradas pelo estresse, encontram formas de se dedicarem às necessidades dos filhos.

E quantas necessidades eles estão tendo! Fome intensa, não só de comida, mas de olhar, de presença, de atenção! Necessidades básicas e complexas. Necessidades emocionais que se sobrepõem as concretas. Crianças que tiveram sua rotina muito afetada, privadas do convívio social, que estão sofrendo interrupções em seus processos de aprendizagem. Que estão, talvez como nunca estiveram, exclusivamente (ou na maior parte do tempo) em casa. Crianças que não estão de férias, pois muitos estão tendo aulas on-line, atividades remotas e uma série de demandas escolares para dar conta, sem preparo prévio e sem a autonomia que se espera, pois se para os universitários ter aulas em EAD é desafiador, imaginemos como está para os alunos do Ensino Fundamental e Médio, como é o caso das crianças e adolescentes.

Tenho o conhecimento de pais e mães que não são professores mas que estão se experimentando como (na maioria das vezes, são as mães que ajudam mais com as tarefas escolares, conforme algumas pesquisas estão apontando), ampliando suas funções e tentando ajudar as crianças a passarem por esse período de isolamento sem tantos déficits na aprendizagem. Além disso, muitos pais e mães também têm procurado interagir com os filhos através de esportes, culinária, filmes e brincadeiras, rememorando suas próprias infâncias na busca por atividades que possam diminuir a ansiedade e a inatividade das crianças confinadas. Famílias que conseguiram organizar uma certa rotina em meio aos dias repetitivos dentro do mesmo ambiente e que têm fortalecido os laços afetivos por meio do convívio.

Que realidade bacana a das crianças que contam com o suporte familiar, com pais e mães responsivos e atentos aos seus filhos. É totalmente compreensível que nem sempre os pais conseguem dar conta de todos os pedidos dos filhos, o que também não seria saudável e entraríamos na questão da intolerância à frustração que pode se originar daí.

Os pais e mães cansam, precisam de tempo para si, para o lazer, para o descanso, para o investimento em si mesmos, para dedicarem-se ao que faz sentido para cada indivíduo. E deve-se falar sobre isso com as crianças. Falar a verdade com amor e com a linguagem adequada ao entendimento delas promove saúde emocional, pois gera um ambiente seguro para que elas também possam expressar suas angústias e ensina-as sobre empatia, respeito, cuidado consigo mesmo.

Elas aprendem com o exemplo e com a nomeação das coisas, isto é, traduzir o que é sentido e vivenciado em palavras – quando a mãe está cansada, por que não dizer isso? Poder dizer que precisa de um bom descanso e que em outro momento vai estar disposta para brincar com o que a criança pede. Dar nome ao que a mãe sente (cansaço), estimula o pequeno a se colocar no lugar da dela (o que eu faço quando estou cansado) e promove a expectativa de um bom momento de brincadeira, com a mãe disposta para isso – e, principalmente, ensina sobre confiança: a mãe prometeu e vai cumprir (pais e mães, fica aqui uma dica valiosa: se prometeu, cumpra!). Falar a verdade com amor promove clareza e facilita o entendimento.

Ressalto que, obviamente, tem situações em que a criança ainda não tem capacidade psicológica para compreender – por isso dei um exemplo simples mas muito verdadeiro sobre a necessidade de descanso. Situações que são complexas para o adulto precisam ser transformadas de maneira muito cuidadosa para comunicar à criança e, para auxiliar também com essas questões, a Psicologia se dedica.

Porém, há realidades frias e duras para essa gente que não tem para onde fugir, que não consegue dar suas escapadinhas, que está sem a escola, sem pracinhas, sem contato com os amigos da mesma faixa etária. Crianças que estão vivenciando angústias que não conseguem expressar em palavras. Ansiedades que saem em forma de agitação, irritabilidade, agressividade, distúrbios alimentares e do sono, até voltando a fazer xixi na cama, por exemplo. Crianças que precisam ter suas angústias acolhidas e traduzidas pelos pais, mas que, infelizmente, são abandonadas às “babás eletrônicas” – tablets, jogos digitais, televisão. Pais que não conseguem acolher as ansiedades infantis, potencializadas pelo momento que estamos passando. Pais que também não tiveram suas ansiedades acolhidas na infância, que aprenderam de forma distorcida a educar ou a estarem presentes – presença apenas física, mas distantes emocionalmente.

As crianças e adolescentes do “pós-covid” já são temas de estudo para nós, psicólogos. Justamente pelos transtornos que o abandono afetivo causa nos pequenos, pelas marcas que perduram ao longo da vida e se mostram presentes nos relacionamentos da vida adulta. Há muitas angústias que os pais e mães não conseguem traduzir imediatamente, talvez a reajam a isso com agressividade ou anulando a voz da criança. Mas poder pensar, respirar e, principalmente acolher o seu pequeno com cuidado e empatia (se colocar no lugar do seu filho) podem fazer a diferença no enfrentamento do estresse da criança e dos pais.

Os recursos eletrônicos/digitais são úteis e bem-vindos em alguns momentos, desde que adequando o conteúdo e o tempo de uso à idade da criança (ver site sobre tempo de exposição). Usar os jogos para interação com amigos, whatsapp para vídeo-chamadas com pessoas queridas, aplicativos educativos, sites interessantes para crianças, por exemplo. No entanto, ocorre que muitas famílias deixam suas crianças entregue aos eletrônicos, por comodidade, por falta de conhecimento dos danos que isso pode causar, por falta de paciência com a criança, dentre outras questões. As crianças precisam de estímulos e de limites, isso cabe muito bem ao uso de eletrônicos. Limites são saudáveis e protegem a integridade emocional e física da criança (e de todos).

Ser pai e mãe dá trabalho! Não é fácil, implica abrir mão de si em muitos momentos, impõe desafios ao amadurecimento pessoal e a resolução dos conflitos internos, para lidar de maneira mais adequada e afetiva com as crianças. É uma missão! Um compromisso com a vida, sua e do seu filho.

É importante lembrar que a Psicologia também se dedica a ajudar os pais e mães nessa jornada, rica e tempestuosa ao mesmo tempo. Sobretudo, é urgente refletir sobre essa galerinha que está sob a responsabilidade (em todos os sentidos) dos pais. Essa turma que está privada da escola e que sofrem por isso, do seu jeitinho. Eles não merecem ter seu sofrimento intensificado pelo abandono afetivo.

Sigo à disposição para auxiliar!

Um abraço acolhedor,
Psicóloga Nathalia Pedro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s