Opinião: Ou ficar em casa vivo ou “morrer pela economia”

Segundo cientistas que estudam epidemias e pandemias, entre os quais médicos e biólogos, há duas formas de se enfrentar o avanço da doença COVID-19 que se alastra pelo mundo: uma é o isolamento social total que, coerentemente, excetua disso os estabelecimentos de atendimento à saúde (incluindo os órgãos públicos da área); comércio e fabricação de alimentos essenciais; comércio e fabricação de medicamentos; e serviços de coleta de lixo. Deste modo, segundo os especialistas citados, o sistema de saúde teria condições de atender todos os casos porque demograficamente o contágio seria baixo. Outra forma é o isolamento vertical, que consiste em isolar apenas o chamado “grupo de risco” que em tese seriam pessoas idosas e/ou com doenças cardíacas ou respiratórias preexistentes, portadores de síndromes do sistema imunológico e quem já passou por tratamento oncológico.

O isolamento total durante algumas semanas pode frear o avanço do contágio pelo Coronavírus, causador da doença, e em poucas semanas ou dias posteriores conter o avanço de modo que o sistema de saúde dê conta de atender devidamente todos os casos que seriam registrados. O isolamento vertical, que seria apenas a mitigação do risco, manteria em atividade “normal” as pessoas que não se enquadram no grupo de risco, embora já tenham sido registradas mortes de pessoas jovens e que eram totalmente sadias antes de contraírem o vírus.

isolamento coronavirus I

Agora vamos aos exemplos dessas duas possibilidades: o primeiro é o quadro milanês, na Itália, onde os idosos ficaram em casa enquanto as pessoas consideradas jovens e saudáveis não pararam de trabalhar “pra economia não parar”. Aí os jovens se contagiaram, e literalmente levaram o vírus pra casa onde, em sua maioria, residem com pessoas cujas características se enquadram nos grupos de risco. Estas pessoas acabaram morrendo em benefício dos “mais jovens e saudáveis” porque não há infraestrutura suficiente para o devido atendimento à demanda de casos, e consequentemente teve-se que optar por quem salvar. Aí a economia que “não podia parar” teve que parar na marra porque os jovens também adoeceram e o contágio se alastrou de forma incontrolável porque não ficou todo mundo em casa. Já em Wuhan-CHN, onde, tudo indica, se iniciou o contágio, as autoridades locais sitiaram a cidade e adotaram toque de recolher, inclusive usando medidas coercitivas para impedir a circulação desnecessária, freando assim a disseminação do contágio e em alguns dias não houve mais nenhum novo caso da COVID-19. Há poucos dias a cidade comemorou o “primeiro dia sem mortes” por essa doença.

A Itália demorou a agir, talvez por não ter a noção real da gravidade do problema, ou por questão de prioridades mesmo. Na China, o governo central agiu muito mais rapidamente em várias frentes quando tomou conhecimento da dimensão que o contágio tomava. No Brasil, governadores e prefeitos adotam as medidas orientadas por cientistas e pela Organização Mundial de Saúde (OMS), enquanto o Presidente da República, contrariando até seu Ministro da Saúde, pressionado por apoiadores – principalmente no sentido financeiro – que ameaçam desempregar milhares de trabalhadores, adota uma retórica negacionista e contraditória que deve trazer graves consequências socioeconômicas. Além disto, estamos muito aquém da necessidade ideal para testar possíveis infectados, diagnosticar a doença e tratar dos pacientes. Tanto em termos de capacidade de desenvolvimento de testes e medicamentos quanto em disponibilidade destes e de equipamentos para tratar a doença. Consequência do descaso do atual governo com as instituições onde se desenvolve pesquisa científica e, do comportamento vil de Bolsonaro em enfrentar a canalhice do presidente dos Estados Unidos (Donald Trump), que boicota o fornecimento de EPIs para outros países, incluindo o Brasil.

isolamento coronavirus II

Somos reféns não de uma pandemia, mas de um sistema econômico, onde uma doença ainda sem cura vulnerabiliza econômica e socialmente a população que trabalha para sobreviver com a matéria que sustenta em um padrão de vida que aprisiona. Devemos ter a responsabilidade de não nos expormos ao risco e lutar pela urgência no pagamento do auxílio emergencial proposto pelo Congresso Nacional.

Pela minha experiência e conhecimento adquirido, concordo com os especialistas que orientam ao isolamento social, extremamente restrito, como citado no início deste texto. Deste modo, o sistema de saúde mais dificilmente entraria no colapso previsto pelo Ministro Mandetta.

Portanto, fiquemos em casa e não reunamos pessoas. Quanto mais cooperarmos, nos distanciando socialmente, mais cedo poderemos voltar a nos encontrar e retomar nossas atividades profissionais e de lazer. Não esqueçamos: vai passar.

 

Bruno Barth Raymundo

*** Artigo de autoria de Bruno Barth Raymundo. Capacitado em Sistemas de Comando Operacional (Defesa Civil-RS, 2011), Construção de Planos de Contingência (SEDEC, 2011) Psicologia dos Desastres (FACCAT-ORPDC, 2011) e Gestão de Riscos (CEPED-UFRGS, 2015). É acadêmico de Licenciatura em Filosofia pela UFPel.

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