Sentimentos do momento: A culpa de estar em casa e o medo do que vem depois

Era 30 de novembro de 2017 e eu comecei a ficar mais em casa, após 20 anos de trabalho na mesma empresa. Decidi não trabalhar mais na empresa junto com a minha família (mãe e irmão). Com acompanhamento terapêutico há mais de uma década, minha psicóloga, que conhecia minha ansiedade, com muita propriedade pediu que eu ficasse 2 meses sem fazer nada. Logo pensei, “como assim, PARAR?”.

Acho que dormi horas e horas, chorei litros, escutava músicas com o volume bem alto, de Aline Barros a Tina Tunner.

Depois de organizar todas as gavetas, me desfazer de coisas que não usávamos ou servia na gente, fazer compras, inventar novas receitas e limpar toda a casa, deitei na rede, escutei passarinhos, enxerguei mais sardas no rosto da minha filha, fui até Novo Hamburgo de bici com a Mel – nossa linguicinha – na cestinha da bike, criei um grupo de pedal as Bike&Elas, comecei a ler e a escrever e estar mais próxima da minha família.

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A parte dita aí em cima, quem lê meus textos já sabia, mas o que eu nunca contei foi o sentimento de culpa e o medo que sentia por não saber o que viria depois. Meus pensamentos rotineiros eram: Para o que eu servia? No que eu sou boa? Como posso ajudar as pessoas? Até porque sobrava muito tempo entre ser esposa, dona de casa, mãe, pesquisadora, escritora e leitora.

Hoje pensei, vou escrever sobre isso: culpa e medo. Já que para muitos, se já não estão, passarão a ficar mais em casa para redução da contaminação do Corona vírus.

Durante este tempo, tenho descoberto algumas coisas, me conhecendo cada vez mais. Eu tinha uma crença limitante de que tinha que trabalhar. Escutei muitas vezes, na mesa do almoço, meu Vô Werno falar daquele jeito bem baixinho.. “Tem que ajudar! Tem que poupar! Tem que trabalhar!”. Ficar doente era sinal de fraqueza. Tomar remédio era alívio imediato para não perder tempo e deixar o trabalho de lado.

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Hoje, quando caminho na rua ou ando de bicicleta em horário comercial, ainda me vem na cabeça: “Quem passar por mim, trabalhando, vai me julgar”. Claro! Porquê antes era eu quem fazia este julgamento. E o medo do que poderiam falar sabendo que eu não estaria mais trabalhando no super? E o medo do que viria a acontecer? De quem eu poderia me tornar?

Esta falta de conforto de não estar mais rodeada e cuidada pela minha mãe e o meu irmão, somada à falta do controle de não estar mais administrando algo que eu já conhecia desde os 13 anos, causou uma grande insegurança dentro de mim. Ir até Novo Hamburgo de bicicleta, com a minha cachorrinha na cestinha, me faz entender, hoje, que foi um ato de coragem. Naquele momento, eu precisava provar para mim mesma que era capaz, realizando esta atitude de liberdade.

Lembro também de pedir para minha amiga, Therumy, fazer um currículo para mim, pois queria ser contratada por uma grande empresa no setor da minha primeira formação de marketing. Na verdade, este medo era para suprir a minha falta de autoestima, de reconhecimento, de criatividade, de ser quem sou, e não para a minha realização profissional. Aquele “ser contratada”, era a necessidade de pertencer a um lugar, a um grupo, a uma grande empresa, para talvez dizer, “me escolheram”!

E quando as pessoas me perguntavam, “andando muito de bici, Muri?”; “Não te vi mais no super?”; “Por que tu não ajuda a tua mãe e o teu irmão, Muri?”. Sim, eu senti culpa, vergonha, solidão, me senti imprestável e a pior filha e irmã do mundo. Hoje tenho a compreensão de que foi preciso e foi a cura passar por tudo aquilo, pois agora eu me sinto merecedora, corajosa, acolhida, profissional e uma filha e irmã presente.

Coluna Muri - 25.03 (2)

Falando um pouco mais sobre culpa:

  • É quando nos julgamos negativamente ao acreditarmos que não conseguimos viver de acordo com os nossos próprios padrões ou os padrões impostos pela nossa família, escola, grupos e sociedade;
  • Ela surge quando nos arrependemos de alguma atitude que tomamos ou quando não aceitamos os nossos defeitos, erros e pontos de melhoria;
  • Nos atinge quando queremos que tudo ocorra perfeitamente, acreditando que controlamos tudo à nossa volta e, o pior, lidar com as dificuldades em admiti-los;

Agora que sua mente vai sair do piloto automático da tradicional rotina de trabalho, PARE E OBSERVE-SE! Sem culpa, vamos ESTAR  PRESENTES em nossas casas, em nossos relacionamentos. Vamos nos observar, vamos nos curtir?

Coluna Muri - 25.03 (1)

Boa estada com os seus amores!

 

 

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