Selfie numa hora dessas?

O acontecimento mais marcante e comentado dos últimos dias não foi a Black Friday, nem o aumento do preço da carne. Muito menos a convulsão social, política e econômica nos países da América Latina e em outras partes do mundo, a violência que assola vários estados brasileiros ou os casos de feminicídio que assombram cada vez mais, todos os dias.

A semana passada será lembrada por todos, fãs ou não, pela trágica morte do apresentador Gugu, que foi reverenciado com um cortejo fúnebre só antes testemunhado por mim, ao menos, por ocasião do falecimento de Tancredo Neves e Airton Senna. E antes que disparem todos os torpedos contra ou a favor de tal celebridade, já adianto que eu não era fã e muito menos telespectadora dos “Domingos Legais”, embora não tenha nada contra quem curtia essa programação e outras comandadas pelo apresentador que, diga-se de passagem, apesar das controvérsias, merece o reconhecimento público, sim, pelo que representou para a história da televisão brasileira.

tv

A comoção popular se justifica em casos como este, onde a população se identifica com o estereótipo “paternalista” do apresentador carismático que preenche o vazio de muita gente em imagens exibidas pelo televisor da sala onde pulsa a alma do telespectador. A TV faz isso, assim como o rádio e outros eventos de cunho popular ou não. A arte é assim, preenche os nossos vazios. E ainda que não haja comparação e nem como equiparar esse tipo de programação que domina os domingos da televisão brasileira com outros eventos culturais de nível mais elevado, se é que se pode dizer assim, é impossível ignorar o apelo circense e divertido pelo qual o povo se rende simplesmente porque precisa muito mais do que pão para sobreviver e amenizar suas mazelas.

Por isso esse cortejo e tantas homenagens ao apresentador Gugu, por isso o amor dos fãs, por isso as lágrimas de quem nunca viu a celebridade ao vivo, mas que agora sujeita-se a horas na fila para o último adeus. É perfeitamente compreensível, mas, lamentavelmente, com um celular na mão registrando em vídeos e selfies o corpo do morto para registro deste funesto acontecimento.

Deprimente, mórbido e de extrema falta de educação e bom senso este gesto, assim como o próprio roubo de alguns celulares no cemitério por uma quadrilha de ladrões oportunistas, até numa hora dessas. Sei que o celular faz parte da vida de todos, até dormindo, mas selfie numa horas dessas?

Admirável a atitude dos parentes e familiares que se sujeitaram ao ato infame de alguns fãs diante das câmeras de seus celulares, minitelas reproduzindo o derradeiro programa, antes de chamar os comerciais para anunciar, na sequência, uma nova atração.

Henry Sobel - Gugu

Tão patético quanto, foram os comentários em redes sociais de uma tal “elite intelectualizada”, incluindo amigos meus jornalistas, comparando a repercussão da morte de Gugu com o rabino Henry Sobel, este último bem menos conhecido deste público que fica hipnotizado pelos programas dominicais. Nenhuma morte é desprezível, nenhum um ser humano é igual ao outro, nem a fama de uma celebridade anula os feitos de outra pessoa reconhecida internacionalmente e com méritos, certamente, até mais importantes para a humanidade do que cantar “O Pintinho Amarelinho”, mas não é assim que se dimensiona uma existência.

Se nascemos únicos e diferentes, cada um na sua circunstância e trajetória de vida, é porque somos incomparáveis e insubstituíveis neste universo. Não gostar do apresentador e admirar o rabino é perfeitamente aceitável, e vice-versa. Mas denegrir ou ignorar os fatos atestados pela comoção popular é ignorância, assim como fazer selfies mórbidas que irão para o limbo, aquele lugar à margem, indefinido, esquecido, negligenciado, tal qual algumas crenças que alimentamos ao longo da vida.

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