O “monstro” do erro

Parte 1

“Eu tenho muito medo de errar ao escrever e fico me cobrando muito…” Essa foi a fala de um estudante adolescente. Uma frase simples, dita talvez sem imaginar o quanto ela me faria pensar.

E, vocês sabem o quanto defendo a escrita como uma forma saudável de registro, de expressão e de organização dos pensamentos. Na adolescência, especialmente, os diários, as anotações pessoais e os pequenos textos escolares podem representar espaços importantes de descoberta, de elaboração de sentimentos e de construção da própria voz. Escrever é também uma maneira de conversar consigo mesmo, de compreender o que se passa por dentro e de dar algum sentido às coisas que acontecem por fora.

Então, como escrever quando o medo de errar chega antes mesmo da primeira palavra? Eu fiquei pensando naquele estudante e em quantas pessoas, de diferentes idades, carregam a mesma preocupação. Pessoas que têm ideias, histórias, lembranças e sentimentos para registrar, mas que, diante de uma página em branco, parecem esquecer tudo o que gostariam de dizer. Não por falta de imaginação, mas pelo excesso de cobrança. Escrever pode ser um ato de coragem. Não porque seja preciso enfrentar grandes desafios ou encontrar palavras extraordinárias, mas porque, muitas vezes, é necessário vencer um monstro silencioso que se instala bem no início do processo: o medo de errar. Ele aparece quando a gente pensa em escrever uma história, uma crônica, um poema ou até mesmo um simples parágrafo. Antes de a primeira palavra chegar ao papel, o monstro já está à espreita, fazendo perguntas, levantando dúvidas e apontando tudo o que pode dar errado.

E se eu errar o gênero textual? E se começar uma crônica como quem começa um conto? E se as ideias ficarem soltas, sem coesão, sem aquela ligação necessária entre as palavras e os pensamentos? E se a frase estiver comprida demais? E se a palavra escolhida não for a mais adequada? E se alguém ler e perceber que eu não sei escrever tão bem quanto imaginava? O monstro cresce a cada pergunta.

Às vezes, ele é tão grande que a gente nem começa. Outras vezes, permite que algumas palavras sejam escritas, mas permanece ali, de braços cruzados, esperando o menor deslize para anunciar que tudo está errado. Não gosta de rasuras, não aceita mudanças, não tolera uma frase mal construída e, principalmente, não permite que a gente experimente.

O problema é que escrever sob o olhar desse monstro é uma tarefa quase impossível. Enquanto tentamos organizar as ideias, já estamos preocupados com a pontuação. Enquanto procuramos a palavra certa, pensamos na avaliação de quem vai ler. E, quando finalmente encontramos uma ideia interessante, o medo de não conseguir desenvolvê-la nos faz abandonar o texto antes mesmo de descobrir aonde ele poderia nos levar. É uma pena quando isso acontece. Porque, antes de se tornar um texto, a escrita é uma possibilidade. Uma ideia ainda desorganizada, uma lembrança que insiste em voltar, uma pergunta que não encontra resposta ou um sentimento que precisa de espaço para existir.

E nem tudo precisa nascer organizado.

Parte 2

Uma crônica pode começar parecendo um conto. Um parágrafo pode não estabelecer a ligação necessária com o anterior. Uma ideia pode surgir fora de lugar, e uma palavra pode não expressar exatamente o que sentimos. E tudo isso pode ser revisto, reorganizado, reconstruído.

O gênero textual não precisa ser uma prisão. A coesão não precisa ser uma ameaça. A gramática não precisa se transformar em um fiscal de cada pensamento que tentamos colocar no papel. É claro que conhecer as características dos gêneros, compreender a organização do texto e aprender a estabelecer relações entre as ideias são conhecimentos importantes. Eles nos ajudam a escrever com mais clareza, intenção e autonomia. Mas precisam funcionar como ferramentas, não como monstros escondidos atrás de cada frase.

E penso especialmente nos nossos estudantes. Quantas vezes uma atividade de produção textual, que poderia ser uma oportunidade de criação, acaba se transformando em uma lista de preocupações? O estudante começa a escrever já pensando nos erros que poderá cometer, na nota que receberá, nos comentários que ouvirá. Em vez de se concentrar no que deseja comunicar, passa a vigiar cada palavra.

Não se trata de deixar de ensinar a gramática, a estrutura dos gêneros ou os recursos de coesão. Muito pelo contrário! Trata-se de compreender que aprender a escrever exige tempo, orientação, leitura, prática e, sobretudo, espaço para experimentar.

Um diário não precisa ter a estrutura de uma crônica. Um registro pessoal não precisa apresentar uma introdução perfeita, um desenvolvimento organizado e uma conclusão memorável. Às vezes, basta uma frase escrita no final do dia. Uma lembrança, uma inquietação, uma descoberta. Algo que, naquele momento, precisava ser colocado para fora.

E os textos escolares também podem começar assim: com a liberdade de tentar, sabendo que haverá tempo para revisar, aprender e melhorar. Talvez seja por isso que precisamos aprender a olhar para o texto de outra maneira. A primeira versão não precisa ser perfeita. Ela precisa existir. Depois, podemos voltar, ler em voz alta, perceber o que não funciona, cortar uma palavra, acrescentar uma explicação, mudar um parágrafo de lugar. Podemos descobrir que a história queria ser outra, que a crônica encontrou um caminho inesperado ou que aquela frase, inicialmente tão estranha, era justamente o começo de que precisávamos.

Escrever também é descobrir enquanto fazemos.

E, nesse processo, errar não significa fracassar. Significa que estamos diante de algo que ainda pode ser construído. E, pensei naquele estudante e tive vontade de lhe dizer que não precisa exigir tanto de si logo na primeira linha. Que escrever é um exercício de aprendizagem, mas também de liberdade. Que há uma diferença enorme entre querer melhorar um texto e impedir-se de escrevê-lo porque ele ainda não está bom o suficiente. Talvez o grande desafio de quem escreve não seja aprender a nunca errar, mas compreender que o erro não precisa ter a última palavra. Poi, quando o medo de errar decide o que podemos escrever, muitas histórias permanecem guardadas, muitas ideias não encontram espaço e muitas vozes deixam de ser ouvidas.

E seria uma pena se, por medo de uma vírgula fora do lugar, um adolescente deixasse de registrar aquilo que sente, pensa e descobre sobre o mundo. Seria uma pena se a cobrança por um texto perfeito nos fizesse perder justamente aquilo que a escrita tem de mais humano: a possibilidade de experimentar, de se expressar e de encontrar a própria voz. Por isso, da próxima vez que o monstro aparecer, talvez possamos simplesmente abrir o caderno, escrever a primeira frase e continuar. Mesmo que ela não esteja perfeita. Mesmo que ainda não saibamos exatamente aonde vamos chegar.

Afinal, há coisas que só descobrimos depois de começar a escrever. O texto não precisa nascer pronto. Precisa apenas de uma oportunidade para começar.

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