Escrever é um ato de afeto

Como escrevi, na crônica anterior, escrever dá trabalho! Pois é preciso sentar, escolher palavras, apagar algumas, mudar outras de lugar. É preciso voltar ao que foi escrito e perguntar se aquilo realmente diz o que a gente queria dizer.

Às vezes, escrever é ficar diante de uma página em branco sem saber muito bem por onde começar. Você já pensou que talvez escrever seja, antes de tudo, um ato de afeto?

Porque quem escreve presta atenção. Atenção intencional nas pessoas, nas pequenas coisas, nos silêncios, nas conversas interrompidas, naquilo que alguém disse sem perceber que estava dizendo. Observa e relata a chuva que começou de repente, a xícara esquecida sobre a mesa, a fotografia antiga, a saudade que aparece sem avisar.

Escrever é uma maneira de dizer: eu vi. Eu estava ali. Eu percebi. E, talvez por isso algumas palavras permaneçam conosco durante anos. Uma carta guardada. Um bilhete dentro de um livro. Uma dedicatória escrita à mão. Uma história que alguém contou e que, por algum motivo, não conseguimos esquecer.

Há coisas que só conseguimos dizer quando escrevemos. Pois, na fala, às vezes, a emoção atropela a frase. No papel, ela encontra tempo: para escolher, para lembrar e para compreender.

Escrever também é uma forma de cuidar da memória. É impedir que algumas pessoas, lugares e sentimentos desapareçam completamente. Quando escrevemos sobre alguém, deixamos um pequeno vestígio de sua existência. Quando escrevemos sobre nós mesmos, talvez estejamos tentando compreender quem fomos e quem estamos nos tornando.

E há algo bonito nisso. Porque uma página escrita nunca é apenas uma página. Ela carrega um pedaço de quem escreveu.

Mesmo quando inventamos personagens, há alguma coisa nossa escondida entre as linhas. Uma lembrança, uma pergunta, um medo, uma esperança. Às vezes, até um amor que não soubemos dizer de outra maneira.

Por isso, acredito que escrever é dar tempo, atenção e espaço às palavras. E, ainda, dar ao outro a oportunidade de encontrar, em uma história que nasceu de nós, alguma coisa que também pertence a ele. E isso eu acho incrível…

Talvez seja esse o maior afeto da escrita: transformar aquilo que sentimos em algo que pode alcançar outra pessoa.

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