Há momentos na vida de uma escritora em que um número deixa de ser apenas um número.
Foi assim quando vi FIOS ocupar o primeiro lugar entre os livros mais vendidos na Amazon e receber o status de best-seller. Por alguns instantes, fiquei olhando para aquela informação como quem olha para alguma coisa que ainda precisa ser compreendida.
Porque, para mim, aquele primeiro lugar não cabia em um ranking.
Atrás dele havia uma história.
Uma história que começou antes de FIOS, antes da Amazon, antes das plataformas digitais e das novas formas de publicar. Começou em 2001, quando publiquei meu primeiro livro, As Pontes, em coautoria com meu colega Luiz Augusto, pela Editora da Universidade Feevale.
Lembro daquele início como quem olha para uma fotografia antiga. Havia o entusiasmo de colocar um livro no mundo, mas também havia todas as incertezas que acompanham quem decide escrever: Quem vai ler? Onde estão os leitores? Como fazer uma obra chegar até eles?
Em algum momento dessa trajetória, cheguei a produzir uma tiragem de 300 exemplares. E descobri, de maneira muito concreta, que escrever um livro é apenas uma parte da história. Depois que a obra fica pronta, começa outra caminhada: encontrar quem queira lê-la.
Alguns livros chegam ao mundo silenciosamente.
Outros precisam esperar.
Talvez seja por isso que o primeiro lugar de FIOS tenha me emocionado tanto. Não porque eu veja o sucesso apenas como uma posição em uma lista, mas porque, naquele instante, senti que alguma coisa se completava — ou talvez se conectasse.
Uma história que começou há mais de duas décadas encontrava, naquele momento, novos leitores.
E há algo de bonito nisso.
O livro que um dia nasceu de uma ideia, que passou pelas páginas, pela revisão, pela publicação e por tantas dúvidas, agora encontrava pessoas que eu sequer conhecia.
Foi então que pensei nos fios.
Talvez nenhum livro seja realmente uma obra isolada. Talvez cada livro carregue os fios dos que vieram antes. Os fios das experiências, das leituras, das perdas, das descobertas, das perguntas que permanecem sem resposta.
FIOS também nasceu desses entrelaçamentos.
Ao escrever suas histórias, não quis explicar tudo. Sempre me interessou mais aquilo que permanece depois da explicação. O pequeno estranhamento que aparece no cotidiano. Uma lembrança que não se completa. Um objeto que parece estar fora do lugar. Uma presença cuja existência começamos a questionar. Um tempo que, de repente, já não obedece à lógica que conhecíamos.
Gosto dessa região em que a realidade parece perfeitamente comum, mas alguma coisa está ligeiramente deslocada.
É ali que minhas histórias começam a respirar.
Em FIOS, memória, identidade e percepção se encontram. As ausências também dizem alguma coisa. As repetições carregam sentidos. Os objetos retornam. E algumas perguntas permanecem abertas.
Os fios, para mim, representam justamente isso.
São conexões, mas também podem ser distâncias. Podem unir, mas nem sempre conseguem estabelecer uma ligação. Podem permanecer ali, mesmo quando já não sabemos exatamente de onde vieram ou para onde conduzem.
Em um dos textos do livro, os fios continuam existindo sem necessariamente estabelecer uma conexão.
Talvez essa imagem também diga muito sobre a própria literatura.
Nem toda história precisa terminar com uma resposta. Algumas precisam continuar dentro de nós.
E talvez seja esse um dos maiores privilégios de quem escreve: colocar uma história no mundo e aceitar que, depois disso, ela já não pertence somente a quem a escreveu.
Hoje, quando olho para FIOS e vejo o caminho que percorreu, penso naquele primeiro livro de 2001.
Penso nos 300 exemplares.
Penso nas dificuldades de encontrar leitores.
Penso em todas as vezes em que continuei escrevendo mesmo sem saber exatamente onde aquela escrita me levaria.
E percebo que a literatura também é feita disso: de persistência.
De continuar puxando o fio.
De escrever outra página.
De acreditar novamente.
Mais de duas décadas depois de As Pontes, FIOS encontrou novos leitores e chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos na Amazon.
Recebo esse reconhecimento com alegria, mas, sobretudo, com gratidão.
Porque sei que nenhum livro chega sozinho.
Há sempre uma história antes dele.
Há sempre alguém que acreditou.
Há sempre um leitor do outro lado.
E há fios.
Muitos fios.
Alguns visíveis. Outros, não.
Mas todos, de alguma maneira, continuam nos conduzindo.