Para mim, nem toda escrita nasce do amor leve. Há palavras que brotam do que ficou atravessado, dentro do silêncio que em mim pesou, da ausência que falou alto demais, do que não encontrou espaço para existir.
Quando escrevo sobre os meus desafetos, não é para reacender conflitos.
É, quase sempre, uma tentativa de compreender o que me marcou sem pedir licença. É encarar relações que não floresceram e, ainda assim, deixaram raízes em mim.
Há nomes que não cabem em cartões. Mas cabem nos meus pensamentos recorrentes, nas perguntas que sigo sem resposta, nas lembranças que insistem em permanecer. Escrever, para mim, é isso: dar forma ao que não teve lugar, organizar o que ficou solto dentro de mim.
Nem todo texto que escrevo precisa ser enviado. Alguns existem apenas para serem escritos, talvez como quando abro uma janela em um espaço fechado há tempo demais. Como quando, enfim, respiro depois de tanto tempo segurando o ar. Porque até o que doeu me ensinou. Até o que não foi me transformou. E, de um modo silencioso, também me construiu.
Então, quando escrevo, já não é mais sobre o outro. É sobre mim. Sobre me libertar, palavra por palavra.
Digo agora, em forma de poema:
A escrita do que não foi dito
nem toda palavra em mim
nasce leve
algumas vêm
do que ficou preso
entre o que senti
e o que não coube dizer
há nomes
que não escrevo para alguém
mas que me escrevem
por dentro
e sigo
tentando entender
o que em mim ficou
sem lugar
escrevo
não para enviar
mas para abrir
um pouco de ar
onde antes era só silêncio
porque até o que doeu
ficou
e, de algum jeito,
me fez
então escrevo
não sobre o outro
mas para sair
de mim
devagar
palavra por palavra