Nem toda poesia está nos poemas, pois as palavras poema e poesia não são sinônimos. São conceitos distintos, mas que se completam e se entrelaçam. Quando falo de poema, refiro-me à forma, ao objeto literário construído com versos, estrofes, ritmo, rima — ou até mesmo com a ausência deliberada deles. É algo palpável: posso abri-lo num livro, ouvir sua cadência em uma declamação ou sentir o desenho das palavras no papel. Um soneto de Camões é poema, assim como os versos livres dos meus poemas. Ambos se oferecem a nós como estruturas visíveis, que a análise literária pode dissecar.
A poesia, por sua vez, é menos concreta. É a essência, o sopro, a vibração estética que atravessa a linguagem e se instala na emoção. Ela se manifesta num poema, sim, mas também pode morar em uma fotografia, em um gesto ou em uma paisagem qualquer. Os poemas de Mário Quintana me vêm à mente: frases curtas, diretas, quase cotidianas; a poesia, no entanto, se revela no instante em que percebemos a beleza escondida na rotina, como um raio de sol atravessando a janela.
Entendi, com o tempo, que nem todo poema carrega poesia. Há textos corretos, bem estruturados, mas frios. Por outro lado, a poesia pode irromper em lugares inesperados: em uma canção popular, na fala simples de um avô, no balançar de uma árvore sob o vento. Por isso gosto da metáfora que tantas vezes repito: “o poema é a casa; a poesia, o sopro de vida que a habita”. O primeiro oferece corpo; a segunda, alma. Quando se encontram em equilíbrio, geram experiências que não apenas tocam, mas também transformam. Compreender essa diferença é mergulhar mais fundo na riqueza da criação artística. O poema é o caminho que percorro com as palavras; a poesia, o horizonte que me instiga a seguir adiante.
Vestes
A poesia é o sopro que não nomeio,
um silêncio que me respira.
No poema, arrisco contorno,
mas ela escorre das margens
e permanece antes da voz.
[…] texto publicado no dia 23 de setembro distingui poema de poesia; agora, retomo a reflexão para avançar no tema. O gênero poético nasce do trato singular com a […]
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