Para mim o gênero não vem antes da obra se algo precisa ser dito, ele encontra sua forma e essa forma pode ou não coincidir com um gênero existente.
Eu não começo escolhendo onde o texto vai caber. Não penso em conto, nem em romance, nem em qualquer moldura que anteceda o gesto de escrever. O que vem primeiro é sempre uma espécie de tensão — algo que insiste, que não se resolve sozinho, que permanece como um ponto ainda não atravessado. E é a partir dessa insistência que a escrita começa a se organizar.
Há textos que pedem continuidade, outros que se sustentam no fragmento. Alguns se aproximam de uma narrativa reconhecível; outros permanecem mais próximos de uma percepção, de um intervalo, de algo que quase se diz. Em todos os casos, a forma não é uma decisão prévia, mas uma consequência — uma resposta ao que tenta existir.
Quando penso em gênero, penso nele depois. Como um nome possível, uma aproximação, nunca como origem. Porque nomear antes é correr o risco de ajustar o texto a algo que já está dado, e não ao que ele ainda precisa encontrar. E escrever, para mim, tem menos a ver com corresponder a formas conhecidas e mais com sustentar o tempo necessário para que algo, mesmo sem forma definida, consiga aparecer.
Nem sempre isso resulta em algo que se reconhece com facilidade. Há textos que ficam no limite, que não se completam inteiramente, que parecem interrompidos. Mas, mesmo nesses casos, há uma espécie de exatidão — não no acabamento, mas no ponto em que o texto pôde chegar sem se perder de si.
Talvez por isso eu não veja o gênero como um caminho, mas como um rastro. Algo que pode ser identificado depois que o texto já aconteceu, quando ele já encontrou o seu modo possível de existir. Antes disso, o que há é apenas o movimento — ainda sem nome, ainda sem forma fixa, mas já suficientemente presente para exigir que eu permaneça.
E é nesse permanecer, mais do que em qualquer definição, que a escrita se sustenta.