Escrever contos é aprender a trabalhar com o instante. Diferente do romance, que se alonga em múltiplas camadas e trajetórias, o conto exige foco: um recorte da vida, um momento decisivo, uma ruptura quase silenciosa. É a arte de escolher qual fragmento da experiência merece luz.
Autores como Julio Cortázar comparavam o conto a uma fotografia: ele captura um ângulo preciso, mas dentro desse enquadramento existe um mundo inteiro sugerido. Já Edgar Allan Poe — que menciono também porque estou trabalhando com estudantes do 6º ano — defendia que o conto deve produzir um único efeito no leitor: um impacto emocional concentrado, como um golpe certeiro.
A arte, portanto, começa na escolha. Um bom conto não quer contar tudo; ele quer revelar algo essencial. Pode ser o instante em que alguém decide partir, o segundo antes de uma confissão, o silêncio que antecede uma descoberta. O escritor de contos aprende a confiar na potência do não dito, na sugestão, na entrelinha.
E é a partir dessa compreensão que vou apontar três dicas fundamentais para escrever contos.
- Primeira dica: escolha um único conflito central. Evite muitas tramas ou personagens em excesso. Quanto mais foco, mais força narrativa.
- Segunda dica: entre direto no momento decisivo. O conto não precisa de longas explicações iniciais. Comece onde a tensão já está presente.
- Terceira dica: revise e corte sem medo. Escrever contos é dominar a economia: poucos personagens, linguagem enxuta, cada palavra com função clara. Se algo não contribui para a tensão ou para a atmosfera, deve ser retirado. No conto, cortar é um gesto criativo.
Mais do que narrar fatos, o contista cria um clima — uma atmosfera que envolve o leitor e o conduz até um desfecho que ilumina todo o percurso anterior. O conto é breve, mas sua reverberação pode ser longa.