E, para concluir o gênero crônica usarei de metalinguagem e assim eu sento para escrever uma crônica sobre escrever crônicas e, como sempre, começo fingindo que não sei por onde começar. Esse meu fingimento é parte do ritual: a crônica gosta de nascer assim, meio distraída, como quem olha pela janela enquanto o café esfria. Digo a mim mesmo que não é nada demais — afinal, é só uma crônica — e é justamente nesse “só” que ela se esconde.
Escrever crônica é escolher um detalhe e tratá-lo como se fosse importante, mesmo quando ele insiste em parecer banal. Agora mesmo, por exemplo, observo o cursor piscando, moderno e impaciente e penso que ele também espera algo de mim. A crônica vive dessa conversa silenciosa entre quem escreve e o que está à volta, inclusive o próprio ato de escrever.
Enquanto avanço, percebo que já estou fazendo o que prometi explicar. Falo do cotidiano, uso uma linguagem que não pede licença, deixo escapar uma opinião aqui, uma ironia ali. A crônica se escreve enquanto comenta a si mesma, como quem caminha olhando o próprio reflexo na vitrine: segue adiante, mas não perde a chance de se observar.
Há quem pense que a crônica nasce pronta, leve, sem esforço. O que é uma mentirinha que contamos para não assustar os escritores iniciantes. Ela exige escuta, corte, escolha. Exige saber quando parar —o que eu considero uma habilidade rara, sobretudo quando o texto começa a gostar demais de si.
Agora, ao perceber que este parágrafo tenta concluir algo, entendo que a crônica já decidiu o momento de ir embora. E é assim que ela termina: quando o cronista se dá conta de que, ao falar sobre escrever crônicas, acabou escrevendo uma.