Em vez de começar com dicas sobre como escrever uma crônica, hoje proponho um gesto diferente: escrever uma. Vos apresento a minha e semana que vem dicas para escrever o gênero crônica
Apresento uma crônica sobre mulheres, meninas, mães e filhas — não como temas grandiosos, mas como presenças simples do nosso cotidiano. O assunto nasce do que costuma passar despercebido: as horas pequenas, os gestos repetidos, os silêncios que sustentam dias inteiros. É nesse território aparentemente banal que a crônica encontra sua força.
Este texto não busca respostas nem lições. Ele observa. Acompanha o ritmo da vida comum, onde o extraordinário se esconde na rotina e onde o íntimo, quando narrado, revela algo coletivo. Porque escrever crônica hoje é, sobretudo, olhar com atenção para aquilo que sempre esteve ali.
Que esta leitura funcione como convite: antes da técnica, o olhar; antes da forma, a escuta. A crônica começa quando reconhecemos que o cotidiano também merece ser narrado.
CRÔNICA
As horas pequenas
Para muitas mulheres, a manhã começa antes de qualquer nome ser chamado. Antes do “mãe”, antes do “amor”, antes mesmo de o café esfriar. O dia se anuncia em tarefas mínimas, aquelas que ninguém fotografa: a meia sem par, o pão que queima rápido demais, o caderno que precisava ter sido assinado ontem. Há mulheres que despertam já cansadas — não do corpo, mas da vigília constante de quem sustenta tudo sozinha.
O tempo é sempre o primeiro a contar a história. Ele balança como quem pede licença ao vento, exposto, sem segredos. As vizinhas veem o tecido antes de verem a mulher. É assim desde sempre: o gesto vem antes da pessoa, o papel antes do nome. Ser mãe, ser mulher, ser só — três camadas de leitura que o mundo faz sem perguntar.
Essas mulheres aprendem cedo a arte da contenção. Não fazem alarde da solidão. Ela se instala como poeira fina, acumulando-se nos cantos da casa e do peito. Não é uma solidão ruidosa; é funcional. Serve para continuar. Serve para não parar. Serve para dar conta. O amor que oferecem é inteiro, mas o que recebem costuma vir em parcelas, quase sempre acompanhado de instruções.
Há uma coreografia invisível no cotidiano dessas mulheres: calcular o dinheiro, medir o tempo, antecipar emergências. Pedir ajuda exige estratégia, e descansar parece sempre um luxo indevido. O mundo pergunta se elas dão conta, mas raramente pergunta de quê. Poucos veem o peso de existir apenas na função, de adiar o próprio corpo e os próprios desejos, como quem guarda um vestido bom demais para um dia que nunca chega.
Ainda assim, há resistência nos detalhes. A vida se refaz no olhar atento, no café requentado que se transforma em pausa. No filho dormindo, prova silenciosa de que algo foi feito certo. Essas mulheres não são frágeis — são expostas. Claras demais para esconder as marcas, firmes demais para se recolher.
Elas permanecem ali, públicas, inevitáveis. Não por descuido, mas por escolha. Permanecer, para essas mulheres, não é teimosia — é sobrevivência consciente. É recusar o apagamento. É compreender que a solidão não é falha individual, mas consequência de uma estrutura antiga que sempre exigiu mais delas.
Não pedem desculpas.
Não se escondem.
E sussurram ao vento, como quem sabe: seguir visível também é uma forma de coragem.