Sou do tempo em que praia não tinha cerca, nem câmera, nem portão. O veraneio era solto, livre, como o jogo de vôlei no pátio com muitas risadas.
Em casa, era churrasco, cerveja gelada, amigos e vizinhos compartilhando um costelão e conversa das boas, sem celular, obviamente, porque não existia essa “coisa” na época. Só por isso, o veraneio era muito mais autêntico e inesquecível.
Depois do almoço, era certo passar o vendedor de picolé, alertando a criançada com sua corneta. E nem precisava ser da Kibon (única marca famosa reconhecida na época). Qualquer picolé era uma festa.
E tinha também o Puxa-Puxa, de açúcar mascavo, que grudava nos dentes; e o afiador de facas de bicicleta; e a vendedora de panos de prato; e os ciganos que apareciam de surpresa pátio adentro, vendendo frigideiras e outras quinquilharias.
Mas o melhor de tudo era não ter cerca e muro. Assim, todos tinham acesso à casa, até os cavalos que apareciam para comer a grama e os cachorros de rua que acampavam por ali, em busca de comida e água.
O primeiro deles foi o Nestor, cãozinho abandonado na padaria da esquina que veraneou conosco até morrer, além de todos os outros que foram sendo incorporados e adotados em parceria comunitária com a vizinhança.
As Pretas, o Micharia, o Rex… todos já se foram, incluindo parte dos vizinhos da praia que faleceram ao longo de quase 30 anos.
Restamos nós, os herdeiros dessa história e desse patrimônio, hoje totalmente cercado de gente, carros, moradores, muros e alarmes. Acho que nem o “tio” do picolé passa mais por lá. Puxa-Puxa, então, nem pensar.
Em tempos de condomínios fechados com segurança máxima, casas de madeira como as nossas, infestadas de cupim, foram sendo demolidas e, hoje, só abrigam lembranças nos terrenos que sobraram.
Felizmente, vivemos para preservar essa memória e nossas histórias divertidas no litoral. As crianças já cresceram, os avós já morreram, a vizinhança mudou e os cachorros não existem mais. Nem a casa se manteve de pé devorada pelos cupins.
Se restou alguma coisa, foi o melhor de nós e o eco das risadas que ainda permanece ao longe, insistindo em nos lembrar que a felicidade é uma corneta que anuncia a chegada do picolezeiro e um cachorro abanando o rabo para a gurizada em troca de carinho e comida.
Mais do que isso, só ter estado lá para saber, reunindo o time para o jogo de vôlei onde ninguém sabia ao certo quem ganhou a partida, no final. Hoje dá pra afirmar que, com todas essas vivências, todos nós saímos vencedores.
E não há dúvida de que ainda resta na boca, também, aquele gostinho do Puxa-Puxa que grudou nos dentes. E a saudade do primeiro dia que o pai comprou a casa da praia!