O clima, forçosamente, é de Natal em todas as vitrines e em todos os comerciais de TV, rádio e redes sociais, mas lamento estragar a comoção que invade o coração das multidões consumistas.
Esqueçam, por alguns minutos, a ilusão da Black Friday e a farsa dessa felicidade forjada. Natal de verdade não pode existir diante de um mundo que devasta as florestas, polui tudo o que come e o que bebe, alimenta guerras ao invés de saciar a fome dos miseráveis e que mata, mata e mata todos os dias, tragicamente, centenas de mulheres neste país.
Hoje, a mensagem de final de ano que deveria ser mais otimista, se resume em um dos apelos mais doloridos, que vale também para todas as outras mazelas, mas que neste momento impera ser dito:
– Meninos, parem de matar nossas meninas! Parem de mutilar a mãe de seus próprios filhos, de exterminar quem sustenta a casa e, muitas vezes, todo o resto da família. Esqueçam o machismo, a raiva, a vingança e vão embora para bem longe, por favor! Abandonem suas esposas, seus filhos e tudo o mais, mas não matem nossas meninas, nossas mulheres, o útero deste mundo.
Alguém poderia ter a “hombridade” de desarmar essas criaturas que disparam contra mulheres trabalhadoras, que ateiam fogo em sonhos que nunca serão realizados, que atropelam o sorriso de quem apenas quer viver longe da escravidão que aprisiona a delicadeza, a fragilidade, a origem da vida? Quem pode ajudar? Quem pode frear a barbárie?
Porque, sim, meninos, vocês nasceram de uma mulher e por elas foram criados, ou não, mas por elas foram gerados. Talvez, por isso mesmo, estejam hoje desesperados em não encontrar nas esposas e namoradas, companheiras e amantes, essa referência que ficou esquecida em algum lugar do passado.
Ser homem garante a esse bando de machistas (ou sei lá que designação tem hoje) o direito à posse de quem nasceu mulher. Só lamento informar que, ser homem não significa nada quando meninos crescem e se tornam assassinos das mães de seus filhos. Ser homem, é outra coisa, meninos!
E se ninguém os desarmou contra isso na infância, alimentando os lobos que devoram, é provável que ainda brotarão outros feminicidas a cada dia, diante do olhar estarrecedor das próprias mães, irmãs, filhas, esposas, incrédulas com os monstros que emergem silenciosamente desse lodo para abater suas presas.
Sim, meninas, cuidado com o lobo mau! Ele existe, convive ao seu lado e rosna, como um cachorro raivoso sem dono que procura garantir seu território a qualquer custo para se manter vivo e poderoso, embora os animais, ao contrário de vocês, meninos, sempre preservam a sua prole.