Naquela terça-feira chuvosa — embora pudesse ser qualquer dia — sentei-me à mesa, como de costume, com meu café e os blocos de notas espalhados como promessas de escrita. Fiquei ali, encarando a xícara como quem espera que o café revele algum segredo do universo. Às vezes, confesso, olho para o nada ou converso comigo mesma, como se o silêncio fosse um interlocutor paciente. A chuva tamborilava na janela com a teimosia de uma poeta rejeitada, e o mundo lá fora parecia suspenso entre o cinza e o quase.
Foi nesse intervalo entre o café e o pensamento que minha mente escorregou para a estante — aquela multidão silenciosa de livros que se empilham como velhos amigos em uma festa onde ninguém sabe se deve dançar ou discutir Kant. Ali estão meus cúmplices: Dostoiévski encostado numa coletânea de contos de terror indie, Clarice espiando por cima de um mangá esquecido, e um romance de banca que, apesar da capa duvidosa, guarda uma frase que juro ter mudado minha vida. Cada um deles me olha com olhos de papel, esperando que eu os leia de novo ou, quem sabe, os escreva de volta.
Sou uma leitora eclética — dessas que leem de tudo, sem preconceito, com olhos curiosos e coração aberto. Já encontrei pérolas literárias escondidas em páginas que o mundo ainda não viu. Autores invisíveis, vozes que merecem eco. E talvez por isso, quando escrevo, prefiro contos e poemas. Narrativas breves, mas que deixam marcas. Gosto do que é intenso e passageiro, como uma lembrança boa que dura só o tempo de um cheiro.
Escrevia. Um conto curto, como quem deixa um bilhete no bolso do tempo. Falava de um homem que só sonhava em preto e branco. Histórias que não pedem licença, apenas entram. Enquanto escrevia, pensei distraidamente na vida moderna: como tudo é urgente, mas ninguém sabe exatamente por quê. Como as pessoas correm para lugares onde não querem estar, e como o silêncio virou artigo de luxo. Talvez por isso eu escreva — para desacelerar o meu mundo, nem que seja uma crônica curta.
… e se a vida for mesmo uma crônica mal pontuada, talvez o segredo esteja em ler de tudo… e escrever só o essencial. Bom, talvez eu não saiba responder com lógica, mas com literatura.
Segue a crônica:
O Homem que Sonhava em Preto e Branco
Todas as noites, ele sonhava em preto e branco. E eu, que o observava com a delicadeza de quem tenta decifrar o silêncio, admito: nunca soube colorir sonhos. Não era ausência de pigmento, tampouco nostalgia de filmes antigos. Era como se o tempo, ao atravessar sua consciência, perdesse a cor por reverência — como quem tira os sapatos antes de entrar num templo.
Os sonhos vinham em tons de cinza: ruas sem nome, rostos sem expressão, lembranças desbotadas como fotografias esquecidas no fundo de uma gaveta. Havia ali uma estética da ausência, uma poética do essencial. Talvez o mundo onírico dele não fosse sem cor, mas livre dela — como se a realidade precisasse ser destilada para revelar sua estrutura mais crua.
Durante o dia, ele vivia o que chamam de normalidade. Um escritório bege, paredes bege, colegas bege. A palavra “bege” parecia mais uma metáfora do conformismo do cotidiano do que uma cor propriamente dita. Falavam sobre coisas que não deixavam rastros, como se a vida fosse feita de ruídos que não ecoam. E ele, entre uma tarefa e outra, tentava lembrar de um sonho colorido — mas tudo o que vinha era o cheiro da chuva e o som de um piano desafinado. A memória, essa entidade caprichosa, parecia lhe devolver apenas sensações, nunca imagens.
Foi então que, numa noite qualquer — e todas as noites são qualquer uma até que algo as torne únicas — ele sonhou com um guarda-chuva vermelho. Aberto. Girando devagar no meio da rua. Um objeto banal, mas ali, naquele universo monocromático, era como se tivesse surgido um eclipse ao contrário: uma explosão de presença no meio da ausência.
Acordou com o coração acelerado, como quem testemunha um milagre íntimo. E naquele dia, pela primeira vez, percebeu que o mundo não era bege — ele é que estava com os olhos em modo econômico. A cor sempre esteve lá, mas exigia disponibilidade. Porque ver, no sentido profundo, não é apenas captar luz. É estar disposto a ser tocado por ela. A realidade não é o que vemos, mas o que estamos prontos para enxergar.
Um poema
O olhar
Sonhava ausências —
não por falta, mas por hábito de não ver.
A cor, memória exilada,
dormia sob o véu do silêncio morno.
Até que o vermelho, súbito, incendiou o mundo
e meus olhos, enfim, arderam em presença