A escrita, às vezes, não nasce para ser lida. Mora no fundo de uma gaveta, dobrada entre roupas antigas, ou repousa sobre a mesa, como se aguardasse um destinatário que não virá. Ela está num bilhete que nunca será entregue, num sorriso que se perdeu no tempo, numa pequena conquista ignorada, na ausência que fala mais alto do que qualquer som, e no silêncio depois do aplauso.
Foi num caderno de capa azul, meio amassado, que entre outras tarefas escolares eu encontrei o bilhete (abaixo reescrito). Não havia envelope, apenas letras miúdas, como se a mão que escreveu tivesse medo de ocupar espaço demais no papel.
Oi pai,
Hoje é Dia dos Pais. Eu sei que você não vai ver isso e nem ler, mas eu queria escrever mesmo assim.
Eu queria que você estivesse aqui. Todo mundo na escola fez cartão pro pai e eu fiquei quieto, olhando pra mesa.
Fingiram que não viram, mas eu vi que perceberam.
Eu não sei porque as coisas ficaram assim. Às vezes eu fico bravo, às vezes eu só queria chorar.
Eu lembro que era feliz e dói lembrar, porque parece que foi outra vida.
Eu queria falar que sinto saudade, mas também sinto medo.
E isso é confuso pra mim.
E, hoje é o Dia dos Pais
O pai está preso. A criança sabe que ele não lerá. E ainda assim escreve — talvez porque escrever seja um jeito de continuar existindo na vida de alguém, mesmo quando o tempo e as paredes separam.
Há, nesse bilhete, o peso de dois sentimentos que raramente convivem sem brigar: a saudade e o medo. O amor que quer sobreviver e o silêncio que tenta engoli-lo.
Penso que certas palavras não foram feitas para o correio. São feitas para lembrar a quem as escreve que, apesar de tudo, ainda há um laço — tênue, frágil, mas vivo. E que, às vezes, escrever é o único jeito de não deixar esse laço se romper de vez.
e… tudo pode virar poesia
Bilhete não enviado
Escrevo para o vazio.
Nenhuma porta se abre,
nenhuma voz responde.
Na escola, tesouras cortam corações,
eu corto o ar com o silêncio.
Lembro dos seus braços.
Agora, só o peso da ausência.
Saudade.
Medo.
Confusão.
O dia dos pais,
uma lembrança
na folha de um caderno velho.