Beiçadas

Meu bebê reborn não tem mais cabelo e já vai fazer quase 60 anos. Roí todas as unhas dessa minha primeira boneca chamada Beicinho que, aliás, nem beicinho teve por muito tempo porque destruí, nem sei como, e pintei toda ela com canetinha colorida, além de ser a responsável por cortar todo o seu cabelo, que nunca cresceu, obviamente, para minha decepção infantil.

Éramos crianças em um tempo em que brincar de boneca incluía tudo isso, até destruí-la por completo, o que não aconteceu com a minha que preservo até hoje, sem nunca levá-la ao médico, acreditam? 

O máximo que eu fazia era colocar todas as minhas “filhas” de castigo no banheiro, chavear a porta e depois não conseguir abrir. O socorro vinha do meu pai, acionado no trabalho para chamar alguém que arrombasse a porta para eu ser resgatada com minhas bonecas, todas ilesas, sem grandes traumas, eu imagino.

Beicinho sobrevive em uma estante, sem roupa, toda “detonada” (como podem ver na foto abaixo), onde a minha infância (e minha sanidade) foi preservada, felizmente, por esse brinquedo de borracha. Não fosse isso, sei lá o que seria de mim.

Optei por não ter filhos deliberadamente e, nem por isso, adotei bonecas para ser mãe, papel que exerço de outras maneiras, modéstia à parte, muito melhor que muita gente que conheço por aí. Lógico que nunca imaginei viver para vivenciar o horror dos tempos atuais, sem julgar as psicopatias e outras doenças que acometem os seres humanos e que nos assombram todos os dias em rede nacional.

Bonecas são o imaginário mais bonito de uma infância saudável, ao menos para as meninas da minha época, nas décadas de 60, 70, e nunca as imaginei como monstros, a não ser em filmes de terror, que hoje já estão ultrapassados, pelo jeito. Essas criaturas reborn me assustam e algumas pessoas mais ainda. 

Abram os olhos e tentem brincar de verdade, com ou sem bonecas. Pena que alguns não tiveram infância, nem brinquedos, nem pais, talvez, para lhes ensinar a alegria da imaginação, o prazer da leitura, a travessura de destroçar uma boneca (e não animais!!!) sem culpa e contemplá-la, dezenas de anos depois, com um sorriso no rosto, como um troféu.

Sobrevivemos para cuidar dos vivos e isso já nos basta! Deixemos as bonecas dormindo no mundo inanimado das nossas lembranças ou em alguma prateleira da nossa memória onde elas ficarão para sempre, abrigando a criança que fomos.

Deixe um comentário