No texto anterior um trouxe um pouco da intencionalidade da escrita e a importância de um propósito. E sobre esse assunto uma pessoa me perguntou o que fazer quando não se tem nada em mente? Minha reação foi, então escreva sobre esse “nada”.
E, eu fiquei pensando em como esse espaço vazio nos preenche e como é bom relaxar profundamente. Sei que na verdade quando se diz “não estou pensando em nada” é porque há muitos e descontrolados pensamentos. Mas, vamos voltar ao vazio, pois ele pode ser um ponto de partida eficaz, na escrita. Escrever a respeito dessa sensação, explorando o significado. E sobre ele ser capaz de criar, refletir ou questionar, ou seja, dar voz ao vazio.
E esse “nada” é um tema rico porque ele nos coloca frente a nós mesmos. Pode ser interpretado como um espaço de liberdade, onde tudo pode ser criado, ou como um reflexo de sentimentos profundos, como solidão ou busca por sentido. Na escrita, esse vazio pode se transformar em metáforas, imagens ou personagens que exploram essa sensação. Pode ser uma jornada interna, um grito silencioso ou até uma celebração do desconhecido, ou até mesmo imaginar (fingir) a alguma sensação, mesmo que desconhecida ou distante.
Escreva sobre os seus “nadas”, simplesmente comece com o que está ao seu redor. Pode ser algo simples, como a descrição de um objeto, um som, um cheiro, uma memória e a partir daí, deixe as palavras fluírem, sem se preocupar com a perfeição. Escrever é um ato de descoberta, de redescoberta e de fingimento, como diria nosso Fernando Pessoa. Você pode se surpreender com o que surge quando começa a dar voz a pequenos detalhes ou sentimentos.
Deu até vontade de colocar em forma de poema… mas, logo abaixo vai um Fernando Pessoa, para me assegurar do seu interesse em continuar a leitura.
Vazios que nos sufocam
Os meus vazios
É só meus.
Tu não os vês,
não os sentes
não os percebes
são só meus,
os meus vazios
Os teus vazios
São só teus.
Não os vejo
Não os sinto
Não os percebo
São só teus
Os teus vazios.
AUTOPSICOGRAFIA
Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.