A Agulha e a Linha do Sentir

Olhar e enxergar, embora sejam ações referentes aos nossos olhos, tem sentidos e significados muito diferentes. Na língua inglesa, to look and to see, expressam este sentido diferenciado, também.

Sentido este que permeou o meu pensamento lá em 2019, quando eu criei o logo do meu estúdio Martina Viegas Narrativas Criativas®

Sentido este, que está comigo em todos os momentos da minha vida, em minhas ações e reflexões.

Olhar, nem sempre é perceber. Olhar, nem sempre é se dar conta. Olhar, é a ação que fazemos quando algo chama a nossa atenção momentaneamente. E logo depois, poft, ela se dissipa no ar.

Enxergar é reparar. Enxergar é sobre se importar. Enxergar é a ação que vem depois de olhar. É quando prestamos atenção em algo. E esse algo continua reverberando dentro da gente.

Eu sempre gostei de brincar com as palavras. De ver poesia e beleza em verbos que representam ações simples que camuflam gestos grandiosos.

Quando a gente começa a exercitar o olhar para enxergar com o coração, a gente amplia nosso alcance de sentimentos. A empatia ganha força. Nossas soft skills ficam mais aparentes. Nossa sensibilidade cresce. 

É um processo. Um momento de troca: a gente deixa de lado o que não serve mais. A gente troca a nossa pele, veste a carapuça do outro e calça as suas sandálias apertadas.

O ato de enxergar o outro é um sinal de respeito, de acolhida, de atenção que ultrapassa a fria educação inicial. É sobre ser genuíno por vontade e sem pensar, é sobre fazer do abraço mental, uma rotina.

Quem enxerga com o coração, enxerga além do que os olhos podem ver. Enxerga mais longe, mais fundo, pois enxerga dentro.

E é por olhar lá dentro, bem fundo, que nosso carinho serve de corda que enlaça e puxa o outro do poço. Um poço que é escuro, úmido, triste. Solitário. Um poço que aprisiona e que não permite que a luz entre.

A gente passa tempo demais tentando fazer os outros nos olharem e tempo de menos dando a real importância a quem nos enxerga.

Confundimos popularidade com influência, números de seguidores com números de amigos, conhecidos com irmãos. 

No liquidificador do nosso coração, precisamos aprender, na marra, a difícil receita do mix de emoções. E mesmo quando o resultado amarga a boca e dói na alma, somos obrigados a nos alimentar de consequências que não provocamos intencionalmente. Ah, a causa e o efeito. Ah, o que permitimos que nos machuca.

Tanto julgamento, tanta maldade, tantas regras de conduta, tantas fórmulas de sucesso, tantos sonhos engavetados, tantas promessas descumpridas.

Tanto de nós, pedaços arrancados que vão embora ou que são doados, que deixamos ir, um pouco a cada dia, com cada um que nos fez bem ou mal e a quem não conseguimos – e nem optamos por – pagar na mesma moeda.

Somos uma colchinha colorida de retalhos diversos que foram costurados com a linha da superação e do perdão. A linha do sentir. A linha do libertar, do deixar ir. A linha invisível e poderosa que nasce dentro da gente, que já serviu de corda para resgate de tantos, que já foi a corda que alguém nos ofereceu para nos tirar do escuro.

A linha do sentir, firme e resoluta, forte e resistente. A linha que por vezes escorre em lágrimas e marca nosso rosto, pois sabe ser afiada se não soubermos como manuseá-la.

Que nossos olhos, vendo e enxergando, em cada piscadela dada possam servir de agulha para que a linha do sentir chegue até aqueles que amamos, aqueles que precisam da gente, aqueles que estão sozinhos no escuro. Que nossos olhos possam seguir costurando e preenchendo vazios, unindo pedaços diferentes de lições de vida aprendidas e ensinadas.

E que sempre sobre um pouco desta linha em nosso bolso, para em caso de maior necessidade, não nos esqueçamos da gente… Podendo reparar algum estrago ou outro, mesmo que pequenino, que alguém tenha deixado ao sair do poço.

Com carinho,
Martina Viegas

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