O que você tolera?

Eu continuo em casa. Para mim, não faz sentido algum ser a privilegiada que pode trabalhar de casa, sem exposição ao Covid-19, e sair para passear ligando o @$#%¨* aos finais de semana. Não há meio termo: ou você se cuida, ou você não se cuida; ou você protege a si e aos demais, ou você não está nem aí para nada e nem ninguém. Mas repito: para mim, a privilegiada que pôde ficar em casa nestes 500 DIAS de #isolamentosocial de araque ao qual os sensatos foram submetidos e se submeteram.

Eu entendo que, para os que já saem para trabalhar todos os dias, segurando em superfícies contaminadas em metrôs, ônibus, Ubers e Táxis, possa sim parecer surreal que, “para trabalhar e produzir para os afortunados”, minha vida e saúde não valha nada; para me divertir aos finais de semana, não posso porque devo ficar em casa”.

Sim, não é justo. Eu sei. Mas quer saber? Nunca foi sobre justiça.

O cuidado com a pandemia, o Covid-19 e todas as suas milhares de variantes, é sobre fazer o que é certo. O certo, nem sempre é o mais justo. O certo está acima do que eu acho ou do que você pensa. O certo, é o certo. Ponto. Não deveria haver relativização sobre isto, mas entendemos que se o exemplo não parte lá do presidente, não há como exigir que a massa sofrida deste país consiga alcançar a sensatez de um dia para outro.

Somos um povo batalhador, mas facilmente manipulável. Em lugares como o Brasil, onde o ensino e o estudo ainda cavam crateras sociais gigantes entre as pessoas, “os estudados” serão sempre os “ovacionados”. Os humildes olham para os estudados com um olhar de quase devoção. Quase? “O Messias” voltou. Voltou?

Quase 560 MIL mortes. Para uma doença com vacina. Perdi 6 amigos queridos e não os pude enterrar. E só por não ter perdido ninguém da minha família, como tantas pessoas perderam, caio de joelhos e agradeço.

Nós toleramos muito. Toleramos demais.Toleramos os famosos fazendo o desserviço de apoiar em 2021 o antigo voto de cabresto. Toleramos os grandes donos de fábricas de calçados do país pressionando os seus funcionários a votar na pior escolha. Toleramos as criaturas fazendo arminhas com as mãos. Toleramos a bandeira verde e amarela, tão bonita, servir de uniforme ao fascismo, à ignorância e à maldade.

Toleramos tanto, rimos tanto, que o caos se instaura. A CPI da Covid-19 provou por A + B que sim, o caso da compra das vacinas no Brasil foi conduzido de modo leviano, criminoso e irresponsável. Há os que falam mal do Lula. Há os que falem mal do Bolsonaro. E eu fico só olhando para estes dois grupos raivosos e pensando: “haviam mais opções. Não soubemos votar direito”.

Há 500 dias atrás eu pensei: nós vamos fazer a diferença. Sairemos diferentes deste caos, desta dor, deste medo. Hoje, com tristeza e lucidez que me atordoa, sei que quem já era bom, saiu melhor. Quem já era ruim, saiu pior.

Quando tudo isso acabar, eu já nem terei mais com quem aglomerar. Restaram poucas opções. Fui ficando mais seletiva.

Balada clandestina? Passeata na paulista para volta do voto de cabresto? Foto inspiracional na praia lotada? Tchau, passar bem. A sua sanidade mental é importante, sim. Mas sabe? Não é mais importante do que a sua responsabilidade social.

Falhamos.

Falhamos feio.

Toleramos demais.

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